“Sempre a Lutar” é o nome mais que adequado para o segundo álbum de originais dos Mordaça, banda oriunda de Linda-a-Velha cujo estilo musical se insere no “hardcore punk” (mais conhecido por apenas “hardcore”), mais concretamente no movimento LVHC (cujas siglas remetem para “Linda-a-Velha Hardcore” para os mais distraídos).

Antes de me incidir sobre a apreciação do álbum em concreto e para entender o contexto da qual será base à análise que pretendo fazer, irei aludir, de forma resumida, à minha envolvência com este tipo de sonoridade.

Assim sendo, é preciso realçar que sou um espectador assíduo aos concertos que se realizam na academia de Linda-a-Velha, desde que comecei a frequentar em 2009. Normalmente em regime de matiné, estes concertos ocorrem sob ambientes festivos, de bons momentos, de algum “contacto entre corpos” e sobretudo com muito suor envolvido.

Uma pessoa que nunca tenha ido a este tipo de festa, pode achar que maior parte das pessoas são “doidas” e que não “batem bem”. Contudo a maior parte dos espectadores que frequentam esses concertos têm uma vida “normal”, apenas têm este gosto que na minha opinião é saudável, porque faz romper com o aborrecimento dos momentos triviais do dia-a-dia e faz com que aproveitem de forma mais efusiva as suas instâncias de descanso.

Voltando ao “hardcore” enquanto género musical, considero relevante destacar que existem semelhanças com outras bandas do mesmo estilo que remetem a sua localização geográfica para a génese do movimento musical, tanto nos EUA como em Portugal, este facto serve como ponto de partida para criação de músicas que relatam questões sociais que tanto abordam uma vertente político-social, mas também uma vertente da esfera dos problemas pessoais referentes aos elementos da banda.

É a partir deste ponto que volto a afirmar que a escolha do título do álbum resume bem o “espírito” que esta banda fomenta, pois o espaçamento entre o álbum de estreia e este foi de 7 anos, algo incomum nos dias que correm, que existe uma “pressa” de lançar novo material para justificar presença em concertos e/ou festivais.

Contudo apenas especulo que esta demora se tenha devido a questões de diversas naturezas relacionadas com os membros da banda, algo que não condeno, visto que é difícil ter somente música como “profissão”, algo que qualquer músico sonha desde o momento em que adoptou este estilo de vida.

O primeiro aspecto que saliento sobre o álbum em si, é a sua subida notória de qualidade em termos de produção, algo que afectou em minha perspectiva na “absorção” dos temas do anterior registo discográfico. Através deste ponto, o novo álbum é assim, muito mais apelativo a qualquer ouvinte deste estilo que por sua vez torna as suas músicas mais facilmente reconhecíveis, principalmente na interacção dos seus refrões pujantes.

Outro aspecto que diferencia pela positiva o “Sempre a Lutar” é inclusão de músicos convidados, como é o caso de Hugo Lourenço (mais conhecido por Zé Goblin), vocalista dos Trinta e Um (banda mítica do movimento LVHC) e de Inês Menezes, vocalista dos Nostragamus nos temas “2795” e “Ovelha Mansa” respectivamente.

No primeiro caso, interpreto-a como sendo um forte “rival” ao tema dos Trinta e Um proclamado de certa forma como “hino” de todo o movimento intitulado simplesmente por “Linda a Velha Hardcore”. O refrão deste nova malha refrão resume bem a vivência deste movimento musical e tendo como o Zé Goblin a partilhar os seus dotes vocais, estabelece uma “ponte geracional” entre ambas as bandas, cujo resultado final é um “petardo” de tema :

“Sangue do meu Sangue

Suor do meu Suor

2795 Linda-a-Velha Hardcore

As modas vão e vêm, os chungas continuam

Há mais de 20 anos a berrar pelas ruas”

No caso da “Ovelha Mansa”, Inês Menezes tem o privilégio de cantar o refrão da música que por si só tem uma forte crítica sobre o carácter submisso que os indivíduos têm em aceitar as decisões dos seus superiores em assuntos de ordem pública; Apesar das suas inúmeras queixas, estas na verdade, não passam de pensamentos frustrados fruto da incapacidade de não conseguir sair da sua zona de conforto e reivindicar os desejos de uma vida mais adequada aos objectivos de cada um:

“Não queiras seres mais um

igual a toda a gente.

Mais uma ovelha mansa

neste mundo doente.

Tu põe-te a pau

é melhor teres cuidado

não seja mais um escravo mais um encalhado”

Para além destas malhas, existem mais dois momentos altos nesta dose de meia hora de hardcore nacional: o primeiro é a faixa titulo do álbum que abre com uma linha de baixo bastante assertiva que faz distinguir-se do resto e cuja principal mensagem serve tanto como lema de sobrevivência para qualquer banda custe o que custar, mas também pode se aplicar como guia para aguentar os problemas vivenciados pelo quotidiano dos indivíduos.

O segundo momento é o tema que encerra o álbum intitulado de “Terra de Camões”, da qual já tinha sido apresentado na compilação “Exploding Acsom” (e com outro vocalista), aparece agora regravado, com muito mais impacto e que encerra com “chave de ouro” este disco.

Em suma, “Sempre a Lutar” é um disco que não apresenta inovações no “hardcore”, algo que na minha opinião é desnecessário, visto que o próprio estilo tem sido alvo de poucas mudanças ao longo dos anos, contudo é um grande passo em frente para os Mordaça, como sendo uma banda “estandarte” do “LVHC”, para além de ser também é um disco coerente e carismático dentro das sonoridades mais “pesadas”.

Para além disto, alguns temas pertencentes a este álbum julgo que virão a ser, mais cedo ou mais tarde, hinos na discografia de Mordaça como é o caso do “2795” e “Sempre a Lutar”, resta agora promover o material sob a forma de concertos, pois é aí que reside o espírito desta banda e apoiá-la para que o próximo registo seja tão bom como este.

(Videoclipe da música “2795” com excerto dum ensaio da banda)

Poderão acompanhar o trabalho dos Mordaça e das outras bandas mencionadas no Facebook nos seguintes endereços:

https://www.facebook.com/mordacahc

https://www.facebook.com/trintaeum.lvhc

https://www.facebook.com/nostragamus.pt

João Pardal