“Luto” é o título do mais recente álbum dos Tara Perdida, o primeiro na era “pós Ribas”, carismático vocalista que faleceu precocemente no ano passado, da qual viria ser a principal força motriz na génese deste registo discográfico.

Após vários concertos em jeito de homenagem, culminando com o concerto no Paradise Garage da qual teve a presença de vários convidados do meio musical do rock como Tim dos Xutos e Pontapés, Diogo Ramos dos Fita Cola, Samuel Palitos dos Censurados entre outros, a banda decidiu continuar em actividade, alegando que seria a “vontade” do seu antigo companheiro e de certa forma serviria também como tributo ao mesmo.

Para o lugar de vocalista, a banda recrutou o amigo e ex vocalista dos Easyway Tiago Afonso para cumprir essa grande desafio que é substituir uma das figuras mais emblemáticas da cena “punk” em Portugal.

Fazer uma apreciação deste trabalho é uma tarefa “ingrata” visto que existe duas perspectivas para fazê-la: a primeira é descartar o passado dos Tara Perdida e ouvir álbum por aquilo que é, evitando assim a inevitável comparação com a voz do Ribas; a segunda é precisamente a oposta, isto é, enquadrar a evolução da discografia que a banda lançou no passado e avaliar o resultado do álbum em si, tendo em conta o historial da mesma.

Por este motivo vou adoptar uma via de análise que tenta unir as perspectivas que mencionei para dar uma maior imparcialidade relativamente à crítica do disco.

É importante realçar que este dilema nasce com o próprio titulo, “Luto”, que faz menção ao facto de terem perdido o seu líder, e por isso é difícil encarar o novo álbum como sendo um renascimento da banda, mas sim como uma homenagem ao seu “colega de armas”.

Passando para a apreciação do álbum em si, devo dizer que no geral este trabalho prossegue o tipo do sonoridade explorado em “Dono do Mundo” (2013), sendo que continua com os elementos base que caracterizam o som “típico” de Tara, mas com uma produção mais “comercial”, no sentido em que a sonoridade da banda é mais apelativa para um público que não esteja “dentro” deste tipo de som, sendo que a música “Lisboa” desse álbum é um claro exemplo do que pretendo argumentar, visto que é uma balada emotiva com a participação especial de Tim, que se reflectiu com a presença intensa nas playlists das rádios portuguesas (da qual ainda hoje se encontra presente).

Não estou a inferir que isto seja um mau passo para a banda, é apenas um passo lógico para uma maior exposição da banda em si e o facto de terem-se aliado com editoras multi nacional desde “Nada a Esconder” (2008), cuja decisão cabe exclusivamente à direcção que os Tara pretendem seguir enquanto banda, e por esse motivo é algo que não pode ser criticado por alguém que esteja de “fora”.

“Luto” abre com uma melodia de guitarra bastante suave e “sentimental” em “Regresso”, talvez para simbolizar a perda infeliz e ao mesmo tempo para indicar um possível retorno ao som mais “punk-rock” dos Tara, como é possível evidenciar com o resto da faixa da qual possui um ritmo pulsante com um vocal pujante de Tiago Afonso.

O resto do álbum é um misto de malhas de punk rock “à antiga” como é o caso de “Um dia de cada vez” e “Vem daí”, para além de outras com um toque mais “comercial” com refrões “orelhudos” como é o caso de “Luta” e “Histórias de Silêncio”; Há lugar também para faixas com um “feeling” mais “balada” como é caso de “Até ao fim” escrita e cantada por “Ruka” (guitarrista) em clara homenagem ao seu falecido colega e amigo, que juntamente com “Morfina”, representam os pontos altos em termos líricos.

Destaco ainda para a última faixa intitulada de “Jogo”, que apesar de funcionar como “outro” e não ser considerada uma música propriamente dita, encerra o álbum de forma simbólica, ao invocar uma metáfora que muito bem pode possuir um duplo significado: primeiro pode ser interpretado como sendo uma elegia relativamente à forma inesperada que Ribas partiu deste mundo; em segundo lugar pode ser um paralelismo à vida de pessoas que têm problemas relacionadas ao consumo excessivo de “drogas” e pelo qual entram no tal “jogo” e dificilmente saem da mesma forma como entraram.

De forma resumida, o presente álbum dos Tara Perdida apresenta um trabalho consistente dada à situação actual da banda e segue o caminho iniciado em “Dono do Mundo”, com uma sonoridade mais apelativa ao público das massas, sem perder a identidade da banda. Como tributo ao Ribas parece-me uma boa homenagem e deve agradar aos fãs, no entanto eu sou defensor da ideia que deviam ter mudado de nome visto que o João Ribas foi um dos principais impulsionadores do movimento punk-rock português, tendo o mesmo acompanhado a génese de muitas bandas do estilo, ao ter frequentado muitas salas de espectáculo “underground”, sendo que o vi pelo menos uma vez na Academia Recreativa de Linda-a-Velha.

Contudo não é por ter esta opinião que vou deixar de ouvir Tara Perdida, apenas não vai ter o mesmo impacto quando tinha o Ribas na linha da frente. Desejo sorte à banda e continuem a espalhar o espírito de “rock n roll” que sempre o fizeram.

TARA_PERDIDA_2015

(Formação actual dos Tara a partir da esquerda: Pedro Rosário “Krystos”, Tiago “Ganso”, Tiago Afonso, Rui Costa “Ruka” e Alexandre Morais)

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João Pardal