Os Mão Morta são, a meu ver, uma das bandas mais enigmáticas da música portuguesa por inúmeras razões, contudo vou proferir apenas duas pois considero-as como sendo as mais relevantes: a primeira advém do facto de terem quase 30 anos de carreira sem nunca terem tido hiatos durante a sua existência, apesar da mudança dos seus elementos ao longo dos tempos, sendo o seu vocalista Adolfo Luxúria Canibal e baterista Miguel Pedro, os únicos membros constantes na banda desde os seus primórdios; a segunda razão provém do seu estatuto de banda de culto, devido à persistência da sonoridade praticada pelos Mão Morta e do registo “spoken word” e “cavernal” do seu vocalista, que se manteve igual desde a época de participação no mítico e já extinto concurso da música moderna no “Rock Rendez-Vous”.

“Pelo Meu Relógio São Horas de Matar” é um título, que à primeira vista, pode soar bastante controverso e pode ser banalmente rotulado como sendo um acto de “falta de bom senso” por parte dos Mão Morta, mas é inegável que causa impacto a qualquer pessoa que oiça essa frase e felizmente esta banda existe para desafiar o ouvinte para romper a ideia do “politicamente correcto” através da ênfase dada à crítica socio-política, mas também em temas que abordam aspectos de natureza mais “negra” da condição humana.

Este foco que me refiro é possível ser evidenciado através do vídeo de promoção feito a “Horas de Matar” (link no final do artigo), onde é possível observar Adolfo Luxúria Canibal a alvejar indivíduos que representam diversas entidades públicas como certos bancos, intercalado com imagens de inúmeras figuras políticas nacionais (quer do presente, como do passado).

Tendo em conta que a banda tem hábito de possuir humor negro contido nas suas letras, é óbvio que o objectivo da música em questão não é o de incentivar em nos tornar assassinos compulsivos face aos nossos problemas, mas é antes uma metáfora que, na minha perspectiva, pretende representar um grito de revolta e uma necessidade de embutir uma maior consciencialização social em nosso redor, face às incongruências existentes no nosso quotidiano. Sendo esta música que encerra o álbum, considero mais que apropriado terem efectuado esta opção, pois a mensagem que o tema abrange é feita ao estilo mórbido que os Mão Morta estão acostumados a proporcionar, que tanto possui um tom sarcástico, como de crítica, que em grande parte é devido à rouquidão vocal e ao som “pesado” praticado pela banda em si.

Em relação aos outros temas presentes no “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar” oferecem momentos de “comunhão sonora”, fazendo com que este álbum seja um dos registos discográficos mais memoráveis que os Mão Morta disponibilizaram desde o “Mutantes S.21” (1992) e hipnotiza a quem o escute, colocando-o em transe musical. É possível constatar este efeito em temas como “Hipótese de Suicídio”, “Pássaros a Esvoaçar” e “Preces Perdidas”, onde o som melancólico da banda conjugado com os vocais “arrastados” proporcionam momentos de introspecção pessoal, algo reservado a bandas sublimes como é o caso.

Destaco ainda para a irreverência e ao mesmo tempo estranheza dos temas “Mulher Clitóris Morango” e “Os Ossos de Marcelo Caetano”, que provocam um sentimento de desconforto a quem ouve estas faixas devido ao hiperbolismo causado pela repetição do refrão destas músicas principalmente na segunda, onde é possível escutar a frase assombrosa:

“Os Ossos de Marcelo Caetano

voltam a assombrar o palácio de São Bento”

Em poucas palavras, “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar” mantém a identidade e consistência que os Mão Morta têm apresentado ao longo dos anos, principalmente desde o início das edições discográficas no século XXI, com “Primavera de Destroços” (2001). Na minha humilde opinião é o disco mais forte desde os tempos de “Budapeste” (single do álbum Mutantes S.21) que corrobora a sua relevância no panorama nacional de uma banda deste calibre; Não é um álbum para o público de massas, pois o timbre de voz do Adolfo Luxúria Canibal impossibilita que o seja, mas creio que este álbum seja um “ataque” aos alicerces normativos da sociedade, que há muito não são questionados nem modificados e por esse motivo, os Mão Morta estão cá para relembrar esse aspecto, que em linguagem vulgar, pode-se afirmar que “põem o dedo na ferida” nalgumas questões que deveriam estar mais presentes na consciência de cada indivíduo, que a curto prazo também afecta a consciência colectiva.

Podem acompanhar o trabalho dos Mão Morta em:

Site Oficial: http://www.mao-morta.org

Facebookhttps://www.facebook.com/maomorta

João Pardal