Actualmente no panorama da música “alternativa”, existe um nicho específico de bandas que focam as suas sonoridades, tendo como base, o paradigma implementando na música rock norte-americana da década de 60 do século passado. De forma muito resumida, pode-se dizer que a influência do consumo de drogas “psicadélicas”, fez-se sentir na composição de temas, caracterizada por devaneios de longa duração, quer a nível melódico como rítmico por parte dos músicos envolvidos. Bandas como Grateful Dead, Pink Floyd (ainda com Syd Barrett), Jefferson Airplane e Cream são alguns dos exemplos maiores deste género musical, que, para além de outros, contribuíram para o firmamento do fenómeno de contracultura na América do Norte.

Após este período “agitado”, que provocou severas modificações sociais, a música que esteve na linha da frente, foi perdendo protagonismo, para dar lugar a uma renovação de géneros musicais. No entanto, é inegável constatar as repercussões, que este tipo de música teve na definição da identidade desta década, influenciando posteriormente futuras bandas.

Apesar de sempre ter havido várias tendências que iam “beber” elementos deste vaga psicadélica, desde o “stoner rock” e o “shoegaze”, a confirmação de uma nova moda revivalista no universo alternativo, foi a estreia discográfica dos Tame Impala “Innerspeak” (2010) e passado cinco anos, têm ganho cada vez mais atenção do público mainstream e dos órgãos mediáticos.

Tendo este fenómeno proliferado por vários pontos do globo, Portugal também não foi excepção e uma dessas bandas a corroborar este argumento são, sem dúvida, os Capitão Fausto. Porém existem outras, que, de uma forma ou de outra, são também influenciadas por inúmeros aspectos que já foram alvo de destaque em tempos passados, todavia têm a capacidade de serem relevantes nos tempos actuais, trazendo à mesa, uma originalidade pertinente. A banda que será enfatizada no presente artigo serão os Black Bombaim com seu terceiro álbum de originais “Far Out” (2014).

Considerei importante contextualizar esta análise, devido à coincidência que Tame Impala e Black Bombaim partilham, no que diz respeito ao ano das suas respectivas estreias discográficas de longa duração. Desta forma relaciono este pormenor, como sendo um mediador entre o tipo de música que ambas as bandas produzem, apesar da exposição que cada grupo possui, ser completamente distinta, tomo os dois casos como particulares, tendo em conta o público que ambos se destinam.

À semelhança dos registos anteriores, Black Bombaim compõem álbums “à antiga”, quero dizer com isto, que com cada disco lançado pelo grupo de Barcelos, apenas contém um número mínimo de faixas com a ultrapassar a marca dos 10 minutos, que no formato vinil corresponderia à ocupação de um lado do disco.

Assim sendo, o trio barcelense compôs os temas “Arabia” e “Africa II”, que na verdade, são mais que simples faixas de um disco, são portas de entrada para um “maravilhoso mundo novo”, que viajam para vários cenários musicais contemplando a música progressiva, o jazz e rock “arranhado” de distorção.

Separadas por várias secções, caracterizadas principalmente pela constante presença de ostinatos rítmicos  o ouvinte é convidado a envolver-se nas suas paisagens sonoras, com os Black Bombaim a cumprirem o papel de cicerones. Para além da guitarra baixa e bateria, é também possível escutar um saxofone e um sintetizador em certas partes das músicas, dando um toque subtil mas eficaz, que transmite a sensação que estamos a navegar por paisagens exóticas e fora do nossa zona de conforto.

Em poucas palavras,”Far Out” continua com a tradição que esta banda nos tem acostumado desde 2010, no entanto, na minha humilde opinião, deu um ligeiro passo em frente, que se manifesta em grande parte pela complexidade dos arranjos apresentados no disco. Apesar de nos dias de hoje, sermos constantes bombardeados por música “pastilha elástica” e que tem de seguir uma fórmula pré concebida, os Black Bombaim fazem questão de relembrar que já existiu um período onde o destaque era dado aos instrumentos. Através da exploração da capacidade de improviso de cada músico, o resultado final é algo que merece ser escutado repetidas vezes. Recomendo a audição com “headphones” de boa qualidade e deitados na cama ou sofá.

Podem acompanhar o trabalho dos Black Bombaim em:

Site oficialhttps://blackbombaim.com/

Facebookhttps://www.facebook.com/blackbombaim

Soundcloudhttps://soundcloud.com/black-bombaim

João Pardal