“Fruto de uma carolice” é assim que Fátima define o nascimento da Tó and Ticha Records (TNT), uma pequena loja que vende discos de vinil em “segunda mão”. Os géneros musicais disponíveis variam dentro do universo musical do rock, desde os “clássicos” Rolling Stones e Pink Floyd, passando pelos “sons mais pesados” dos Black Sabbath e Iron Maiden, sem esquecer das bandas portuguesas como os UHF e Mão Morta.

Para quem nunca entrou no número 54 da rua de Campolide em Lisboa, a reação centra-se em duas particularidades desta loja: o seu reduzido tamanho e a vivacidade proporcionada pela decoração a rigor, recheada de memorabilia, que incluem cartazes, canecas, miniaturas de guitarras entre muitos outros objetos que contemplam este espaço.

Também conhecida por “Ticha”, Fátima, de 54 anos, conta que foi por “amor à camisola” que decidiu, juntamente com o marido António, abrir uma loja especializada neste tipo de negócio. Apesar de ser um hobby que tem margem para lucro, faz questão de sublinhar que o seu companheiro é “colecionador a sério do vinil”. Conheceu-o quando ainda eram colegas de escola, durante uma viagem de finalistas a Londres em 1977 e entre os diversos locais que visitaram, um dos pontos de encontro de ambos, era uma loja de discos.

“No princípio, antes de namorar, tínhamos o gosto em comum, em ir às lojas de discos, que na altura chamavam-se discotecas. Tínhamos imenso prazer de ir ver os discos (nessas lojas) De certa forma erámos window shoppers e achei que ele (seu marido) percebia do assunto. Nessa viagem trouxe na bagagem um disco dos Status Quo, que curiosamente está a tocar na televisão” (Um DVD da banda inglesa serviu como banda sonora, durante a entrevista)

Os discos pedidos da “Ticha”

É professora de História, mas também exerce trabalhos de tradução, e por isso não vive exclusivamente dos rendimentos obtidos na loja. Desde o dia 8 de Dezembro de 2012, que a TNT abriu portas ao grande público e a caminho do terceiro aniversário, planeiam lançar um site de domínio exclusivo com a lista completa dos discos que têm para venda, de modo a alcançar um maior número de pessoas. Antes disso, possuíam uma conta associada à loja no Ebay, conhecido site de leilões, mas estava direcionado para o mercado norte-americano.

“Quando criamos conta, referente a esta loja, era uma forma de autofinanciarmos relativamente ao nosso vício de comprar discos. Tínhamos uma montra virtual cerca de 90 leilões colocados e os preços estavam vocacionados para o mercado americano. Por essa razão, o online é destinado para coleccionadores de fora”

Para além da loja, a Tó and Ticha Records já esteve presente em feiras dedicadas a este tipo de negócio no LX Factory em Alcântara. Estas deslocações não são frequentes afirma “Ticha”, porque não são alvo de interesse por parte da gerência, mas das três vezes que participaram, foram felicitados pelo seu profissionalismo por colegas mais “veteranos” desta área.

Quando tem compromissos profissionais, que impedem a sua comparência na loja, Fátima tem a ajuda do seu filho mais novo para manter a sua loja aberta para eventuais clientes. “Ticha” acredita assim que está a cumprir o papel enquanto mãe pois expõe a música rock que gosta, desde os tempos que havia concertos no pavilhão Dramático de Cascais.

“O (filho) mais novo é que me substitui nos dias em que preciso ir dar aulas. Claro que há dias em que não é possível, mas é raro acontecer. Através da loja, tem conhecido e ouvido rock clássico dos anos 70. Por exemplo, ontem ao chegar à loja, quase na hora de fechar, deparo-me com ele a ouvir o Lamb Lies Down on Broadway dos Genesis”

Vira o disco mas não toca o mesmo

A tendência das superfícies comerciais de grande dimensão de terem aderido a este renovado interesse pelo formato, não é de agrado dos comerciantes do mercado “segunda mão”. Por um lado como Fátima realça, a maior parte das re-edições em vinis são produzidas, a partir de masters digitais, trazendo assim uma falsa ilusão que estamos a trazer o “pacote completo para casa”. “A música não é só composta por “zeros e o número 1” (referência ao código binário da Álgebra), é “muito mais do que isso” complementou. De forma sarcástica  acrescentou que os discos à venda nessas superfícies podem ser comparados a “chouriços”, visto que a função deles é apenas para “encher prateleiras sem saber como os detalhes da edição”.

Em relação ao tipo de clientes que a TNT possui, Fátima não tem qualquer dificuldade em distinguir dois grandes grupos: o primeiro diz respeito aos colecionadores que estão “nestas andanças há algum tempo” e que devido à ascensão do CD durante os anos 80 e 90, deixaram de comprar vinil. O segundo grupo está associado a uma nova geração de jovens, a partir dos 20 anos, que estão a “redescobrir” este hábito de ouvir discos.

“O vinil sempre foi reconhecido como tendo o melhor som, em relação ao digital, por isso bandas, como os Rolling Stones, nunca deixaram de lançar vinil. Na verdade, os audiófilos sempre compraram neste formato, assim como os próprios músicos. As pessoas compravam os CDS devido ao espaço e à superioridade do som. No fundo acredito que eles foram enganados e que nos últimos anos aperceberam-se desse erro”

Um recente estudo realizado pelo centro de inquéritos norte-americano Nielsen, revela que comparativamente ao ano anterior, 2014 apresentou uma subida no número de vendas de vinis, em relação aos novos lançamentos no mercado discográfico dos EUA. As estatísticas apontam para uma subida de 37%, que corresponde a 9.2 milhões de discos vendidos, que contrastam os 6.1 milhões do ano antecedente. A lista dos 10 álbuns mais vendidos inclui artistas contemporâneos como Arctic Monkeys e Mumford & Sons, mas também bandas veteranas como Pink Floyd e The Beatles, sendo os últimos, líderes desta tabela.

Questionada sobre a longevidade dos The Beatles, Fátima vê o interesse contínuo pelos Fab Four, visto que é uma das bandas mais pedidas pelos “miúdos que passam pela TNT”. Confessa que a adoração pela banda britânica foi apenas mais tarde, por motivos “inoportunos”, talvez pela imposição fanática pelos Rolling Stones.

“A malta entre os 18 e os 20 anos, que estão a descobrir o vinil, perguntam-me essencialmente por duas bandas: Beatles e Queen. Não sei porquê, mas é difícil de explicar sinceramente. Depois desse primeiro contato posso, dependentemente do tipo do cliente, fazer uma apresentação de uma outra banda que não conhecem. Se aceitarem a minha sugestão, fico com sentimento de missão cumprida”

Um disco é (também) cultura

Para “Ticha” e seus clientes, o vinil é encarado como um “objeto de cultura”, pois oferece a “experiência completa”, que passa desde a “arte gráfica do álbum”, até à “sleeve com as letras” que oferece uma “dimensão literária à música que estamos a ouvir”. Acrescenta que só o processo de por a agulha do gira discos para por o disco a tocar, é um “ato de compromisso”, algo que carateriza a “essência da música”. Apesar os hábitos de ouvir música estarem em constante modificação, devido ao advento do digital, o vinil funciona como uma porta de entrada para um tempo diferente, onde as pessoas se cruzavam numa discoteca e que os gostos musicais potenciavam tema de conversa.

Estando refém da popularização dos serviços de streaming através das plataformas como o Spotify e o Youtube, o vinil, apesar de frágil, é um dos formatos mais reconhecidos pelos “audiófilos” e por isso irá sempre existir público que não o irá deixar “morrer”, ao contrário do CD como alerta a fundadora da Tó and Ticha Records.

A “experiência do vinil”, como Fátima atenta, foi melhor retratada na capa do disco do quinto album de estúdio da banda britânica Sweet. Nela vemos uma agulha de um gira-discos em tamanho gigante, em contato com a superfície de um vinil, transmitindo a ideia, que é um “trator a lavrar a terra”. “São exemplos de arte gráfica e é daí que reside a beleza do vinil” conclui Ticha.

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Fátima com duas edições distintas do emblemático “Sticky Fingers” dos Rolling Stones

Agradecimento especial à gerência pela disponibilidade da entrevista.

João Pardal