“Põe-te a mexer” é um dos motes deste evento, que decorre anualmente na transição do mês de novembro a dezembro. O Vodafone Mexefest é um festival de música, que se realiza em diferentes salas espalhadas ao longo da Avenida da Liberdade, em Lisboa. O tipo de sonoridades que o evento acolhe estão inseridas no espectro “alternativo” dos diferentes géneros musicais, desde o hip-hop até ao rock, passando por sons da “música do mundo”.

Este ano é a quinta edição e as novidades são muitas. A organização disponibilizou três novos palcos, sendo um deles um “regresso ansiado” pelos festivaleiros do Teatro Tivoli BBVA. Os outros dois incluem um palco dentro de um tanque de piscina (sem água) e ainda a sala 3 no Cinema S. Jorge, onde os concertos serão “às escuras”.

Para além dos espaços “do costume”, como o Coliseu dos Recreios, já preparados para receber espetáculos, a grande atração do Mexefest é o de disponibilizar concertos únicos em edifícios simbólicos da capital. Entre os 15 palcos, incluem-se locais como a Sociedade de Geografia de Lisboa, o Ateneu Comercial de Lisboa e a Casa do Alentejo (todos situados na Rua das Portas de Santo Antão). Também há espaço para palcos “inesperados” como é o caso da Estação Ferroviária do Rossio, o Mercado de Música Independente (no jardim botânico junto ao Príncipe Real) e até a igreja de S. Luís dos Franceses.

Para quem comprou o bilhete antecipadamente, visto que a lotação do festival esgotou poucos dias antes do arranque do evento, o espetador tem que se dirigir à bilheteira do Coliseu para trocar o seu bilhete por uma pulseira alusiva ao festival. Através deste sistema, permite evitar que “intrusos” possam entrar nas salas designadas pela organização.

“Vou num pé e volto noutro”

O horário das performances dos artistas são coincidentes e por isso cabe ao público fazer escolhas em relação aos concertos que quer presenciar. Para evitar o cansaço da deslocação por meios próprios, o festival disponibiliza os Vodafone Shuttles, carrinhas de transporte gratuito a portadores da pulseira. Os veículos são facilmente avistados, devido à inscrição do logótipo do festival, para além da sua passagem regular nos “pontos quentes” com afluência do público.

Por exemplo, suponha que acaba de assistir a um concerto no cinema S. Jorge e quer deslocar para a Estação do Rossio. Basta dirigir para o exterior deste edifício, avistar um destes transportes, fazer um sinal ao motorista, entrar e referir o local onde tenciona ir. Como acontece muitas das vezes, as pessoas acabam por correr para ter lugar no veículo e partilham este serviço com outras que não se conhecem. Abre assim a oportunidade de fazer “conversa de ocasião”, principalmente sobre os concertos que acabaram de ver, experiências “festivaleiras” ou então das expectativas sobre os artistas que ainda anseiam presenciar, isto tudo em poucos minutos até ao ponto de chegada.

A “correria” entre os diversos palcos é evidente, pois existe sempre curiosidade em espreitar um pouco o que se passa em cada palco. Como complemento para o espetador, a organização disponibilizou, de forma gratuita, uma aplicação para smartphones específica tanto para ser utilizada antes, como e durante o decorrer do festival. Das várias funcionalidades, destaca-se a possibilidade de comprar bilhetes eletrónicos (com desconto face ao valor das bilheteiras). O utilizador é convidador a consultar informação sobre os artistas que atuam no festival, através das suas biografias e dos vários conteúdos multimédia. A app também serve como fonte oficial de notícias de última hora, como cancelamento de concertos ou eventuais alterações na agenda.

O lado “negro” do festival

Um dos novos conceitos introduzidos na edição de 2015 é a implementação de um concerto “às escuras”, no chamado Vodafone Blackout Room. Com características semelhantes a um cinema, o sítio escolhido é a sala 3 do Cinema S. Jorge. De acordo com o comunicado de imprensa, o objetivo do palco promete ser “uma experiência sensorial que promete surpreender todos aqueles que entrarem nestes espetáculos especiais”. Assim o público presente é convidado a desligar os telemóveis durante 15 minutos, e apreciar o alinhamento que cada um dos artistas tem preparado. Os músicos são de géneros completamente distintos, desde o blues rock nigerino de Bombino, até à “amena” música popular brasileira de Castello Branco.

A ideia nasce a partir do desejo da Vodafone, marca associada à organização do evento, em querer “procurar desenvolver ações que, para além de potenciarem o espírito irreverente, dinâmico e trendsetter contribuem para ampliar e aprofundar a experiência de quem vai ao festival”.

O objetivo final é o de proporcionar um concerto “fora de vulgar”, em que o espetador é convidado a sentar-se na sala, fechar os olhos e focar a sua atenção na música que está a ser tocada. Assim abre a hipótese de fazer uma viagem pessoal e introspetiva, guiada pelas sonoridades propostas pelos músicos.

“E agora para algo completamente diferente”

À partida a música rock e um lugar de culto religioso têm pouco em comum. A Igreja de São Luís dos Franceses é um dos palcos mais singulares do festival e desde o primeiro ano, tem sido um local marcante para quem frequenta o evento. Fundada em 1572 pela Confraria do Bem Aventurado, dos quais faziam parte caldeireiros de nacionalidade francesa e bretã residentes em Lisboa, a igreja ficou parcialmente destruída devido ao terramoto de 1755. Contudo o edifício foi restaurado graças ao envolvimento do Conde de Saint-Priest, embaixador francês, que juntamente com o apoio do rei Luis XV, eleva a igreja ao título de Real e Nacional. A igreja assegura serviço religioso para a comunidade francófona em Lisboa.

Martinne de Stoop é responsável pela guarda e uma espécie de “guia improvisada” do templo. Desde o primeiro contato da organização há cinco anos, acompanha o processo de envolvimento da igreja no festival. Martinne vê com bons olhos a movimentação que o Mexefest traz para a sua congregação, apesar de achar “horrível” o nome do festival Martinne revela que se fosse mais nova, talvez fosse a estes concertos.

“Acho a música uma linguagem muito bonita. Na minha perspetiva, aproxima-nos de Deus e nesse sentido não vejo mal nenhum em querer ligar um espaço de culto com um festival de música. Há pessoas que ficam chocadas com essa ligação, como é o caso do novo padre que chegou à pouco tempo a esta igreja. Mas como o anterior reitor já tinha assinado os papéis não pôde fazer nada”.

Nesse sentido Martinne assegura que se fosse responsável pelas decisões da paróquia, o Vodafone Mexefest poderia contar com o seu apoio, caso conste nos planos dos promotores do evento. Complementa ainda que a organização “tem o cuidado de escolher bandas adequadas para este tipo de espaço” e por isso “não tem nada de mal a apontar”. “Eles (organização do festival) contribuem anualmente com um valor simbólico para pagar as despesas de eletricidade, para além de ajudar na conservação da igreja”, frisa Martinne.

Os portugueses Beautify Junkyards e a norueguesa Anna B Savage foram os privilegiados a pisar o palco da igreja. À semelhança em edições anteriores, estes espectáculos foram “abençoados” com casa cheia como pude constatar. As manifestações, por parte do público, foram bastante reservadas, mostrando respeito a um local, fora do festival, é de culto religioso. Com este tipo de comportamento Martinne vê com bons olhos a “miudagem” que passa pela sua “segunda casa”.

A essência do Mexefest

Uma das figuras que encabeçam o cartaz do festival é Benjamim Clementine, Dotado pianista e dono de uma voz barítono surpreendente, cativou o público português, neste verão, aquando a sua passagem no Super Bock Super Rock. Agora no coliseu dos recreios o concerto é de maior proximidade, pois a simbiose entre as notas tocadas no piano e a plateia será mais apreciado. Ao proporcionar concertos intimistas nas mais variadas salas espalhadas no centro de Lisboa é assim possível resumir um dos grandes atrativos do Vodafone Mexefest.

Através da criação de uma empatia entre o artista e o público, cabe ao espetador de fazer as suas escolhas, de acordo com os seus gostos musicais. Apesar de existir inúmeros percursos que pode fazer é garantido que, no fim da sua incursão “festivaleira”, irá sentir-se que fez parte de uma experiência única e irrepetível.

João Pardal