Com cansaço acumulado e algumas nódoas negras no corpo, o segundo e último dia do LVHC Fest estava reservado com algumas das bandas mais representativas deste movimento musical. Sem desprestigiando os grupos que actuaram no dia anterior, percebe-se que o banquete que se avizinharia, seria repleto de intensidade, em grande parte devido ao estatuto de trabalho e de respeito, adquirido pelas digressões feitas por Portugal fora.

Mais uma vez quando chegamos ao local, estava já preenchido com uma pequena multidão que se encontrava junto à entrada. Quando entramos pelo portão da Academia, do lado direito encontrava-se uma banca de venda de emblemas e de t-shirts. Na mesma direcção mas mais ao fundo, estava situado o estamine improvisado de levantamento de comidas e bebidas. É pertinente realçar a aparente harmonia que sentimos entre o choque de jovens que estavam lá pelos concertos e pelos senhores com maior idade, que pacatamente estavam sentados no interior do estabelecimento, a jogar às cartas, a ver futebol num canal de cabo ou simplesmente a conversar enquanto faziam as actividades anteriores. Aparentemente o barulho vindo do andar de cima parece não incomodar o que para alguns é apenas um “domingo qualquer”.

Falando sobre o festival em si, o dia, seria à partida, mais concorrido devido à presença dos renovados Trinta e Um e aos For The Glory, grupo com maior visibilidade dentro do género Hardcore nacional. Contudo os concertos precedentes encheram o olho dos presentes, que marcaram pela positiva o derradeiro do LVHC Fest.

Bad!

Ao contrário do seu nome, os Bad!, conseguiram abrir as portas a este segundo dia de uma forma estrondosa e, como seria de esperar, bastante positiva. O grupo, composto por quatro jovens das Caldas da Rainha e com apenas trinta minutos de concerto, demonstrou ter capacidade para tocar “como e ao lado gente grande”! Definem-se como “80’s Rawcore”, são crus, duros, energéticos e o sangue novo que o movimento precisa.

A Chama

Percorreram quase 300km de distância para vir aquecer o ambiente ao festival e trazem orgulhosamente Faro, e todo o Algarve, ao peito.  Acenderam o rastilho de um concerto do qual estávamos com elevadas expectativas e as mesmas foram mais que ultrapassadas. Tendo como tema principal as preocupações da sua terra, o grupo pretende alertar para os problemas sociais algarvios e de provar que não é só do turismo que é feito o Algarve mas sim da “própria cultura”. Com riffs sempre “a rasgar”, baixo possante, bateria frenética e uma presença vocal fortíssima não houve quaisquer dúvidas que vieram para dominar a capital e todo o território nacional.

Backflip

Para quem acha que uma rapariga não consegue ser tão ou mais hardcore que um homem, deveria assistir a um concerto de Inês Oliveira e companhia! Desde 2008 a “partir palcos” por vários pontos do país e ao lado de grandes bandas como: Vera Cruz, We Ride, No Turning Back, Dog Eat Dog, Devil in Me, Hills Have Eyes, já demonstram um profissionalismo e uma qualidade sonora bastante diferente de outras bandas que por aqui passaram. Possuem uma sonoridade forte mas ao mesmo tempo dançável, que faz o público ir ao rubro entre breakdowns e mosh-pits.

Grankapo

Após um hiato de 2 anos, os Grankapo voltaram à actividade já no final do ano passado e vieram com maior pujança do que nunca. Para Rui Correia, também conhecido pela alcunha “Fuck”, seria a terceira vez que pisaria o palco, tendo já actuado com os Jackie D e como convidado especial na actuação dos Advogado do Diabo. Agora com os Grankapo, vê-se que é o seu habitat natural, pois foram mais os anos de estrada partilhado com os seus colegas músicos. Munidos com uma musicalidade que tanto une o Hardcore como o Metal, houve espaço para o lançar o tema “Burn”, disponível para audição na plataforma Bandcamp. Culminando com a jarda sonora do tema “Left for dead”, pode-se dizer que “os rapazes estão de volta”. Ficamos ansiosamente à espera do novo registo de originais.

For The Glory

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“Pela glória” do Hardcore Nacional

Desde 2003, os For The Glory têm sido um nome quase obrigatório em qualquer festival pesado. Ricardo Dias, líder incontornável deste quinteto, fez questão de relembrar que é apenas a segunda vez na carreira que pisaram o chão da Academia. Algo curioso para um grupo que tem sido um dos pontos de lança para o movimento Hardcore nacional, tendo lançado álbuns emblemáticos do género como “Survival of the Fittest” (2007) e “Lisbon Blues” (2013). Ainda assim não se deixaram intimidar pelo legado do espaço proporcionado um espectáculo intenso e carregado da personalidade dos músicos que compõem a banda.

Ao longo do concerto, Ricardo não deixou de congratular a iniciativa do festival ao celebrar a música “pesada” portuguesa e da forte aderência por parte do público, tendo em conta as dificuldades que o país atravessa. Neste sentido, o vocalista dos For The Glory recordou duma experiência infeliz vivida em Itália, onde teve menos público, ao contrário da situação vivida durante o concerto em Linda-a-Velha. Procurando uma resposta para o sucedido, o promotor italiano referiu que a comunidade local não valoriza os grupos mais pequenos e que guardam sempre pelas digressões das bandas internacionais de renome. Assim os For The Glory apelaram ao público português para contrariar esta tendência, de modo a apoiar, sempre que possível. a música nacional, pois é através deste apoio que irá decidir o seu futuro, combatendo os “tubarões da música” que navegam pela indústria.

Entre saudosismo do passado mas sempre com um pé no futuro, os For The Glory conquistaram o público do LVHC Fest, com um concerto repleto de emoção e de garra, que vai deixar marca na memória dos público presente.

Trinta e Um

“Não há regresso”, mas a verdade é que o concerto dos Trinta e Um foi, de longe, o mais aplaudido e fisicamente mais vivido pelo público. Com a quantidade quase infinita de crowdsurfing, mosh e “urras” em plenos pulmões é fácil constatar que a tarefa da banda à partida estaria mais facilitada. Mesmo assim a entrega de Goblin, Deris, Rato e Metralha foi a entrega de sempre. Hinos como “O Cavalo Mata”, “Devo Ódio ao Mundo”, “Coma 85” são alguns dos temas que quase mandavam a Academia de Linda-a-Velha abaixo.

Zé Goblin, com muitos quilómetros de concertos (tal como o resto da sua trupe), foi responsável de anunciar duas novidades relativas ao grupo. A primeira é que, infelizmente, seria a última vez que o baixista Metralha estaria a ocupar o seu lugar, devido a motivos pessoais e sobretudo profissionais, que o levou a sair da banda. O segundo seria que o novo álbum está para breve e como jeito de celebração pela lealdade do seu público, irá chamar-se “Siga a Marinha”, que em grande parte serviu como lema da banda, desde os seus primórdios, ainda no século passado.

Foi nesse espírito que a actuação continuou sem dar sinais de fadiga ,sempre a dar tudo em palco. “Merda da polícia” serviu como alerta para as injustiças sociais vividas nos últimos anos. “Sintra” foi uma homenagem às pessoas ligadas ao movimento hardcore desta vila nos subúrbios de Lisboa.

Chegado aos últimos minutos do LVHC Fest, está patente o sentimento de “missão cumprida” de Hugo Lourenço enquanto se movimenta de forma frenética pelo palco da Academia. Ao apontar o microfone para conhecidos que sabem as letras da banda “de cor e salteado”, é inquestionável reportar que o evento foi bem sucedido e provou que este espaço ainda tem muito para dar, apesar do seu passado conturbado por má gerência e por tempos difíceis.

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Convívio entre concertos do LVHC Fest

“Será assim até ao fim”? Esta questão cabe ao público de responder, pois é ele que decide o futuro das bandas “underground” e a julgar pelo sucesso deste evento, parece-me que estamos num bom caminho. Neste fim de semana muitos afirmaram que “somos LVHC” e em verdade é mesmo este o espírito que temos que adoptar. São as pessoas que definem um espaço e por isso, apesar dos empurrões e das dores do dia seguinte, temos que sair de casa, sair da rotina e frequentar espaços de convívio para ver o trabalho das bandas que lutam diariamente para conquistar o que para muitos consideram uma utopia. Estas bandas existem para dizer que romper das banalidades do dia-a-dia e não é por “berrarem” e terem uma sonoridade mais agressiva que os tornam inimigos da sociedade. Aguardamos com ansiedade o próximo evento. Até lá não sejam “ovelhas mansas”.

Para ficarem a par de novidades, podem consultar as páginas do Facebook em:

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João Duarte & João Pardal