A primeira coisa que o leitor deve estar a pensar é o seguinte: que raio de título é este? Será blasfémia, perguntam os fundamentalistas? Será um exercício de intelectualidade criativa, perguntam os “maldizentes”? Ou será um pouco de ambos? Deixem-me explicar e depois tiram as vossas conclusões.

O concerto de Kamasi Washington no Teatro Tivoli foi o segundo em terras lusas, depois de ter estado na Casa da Música no dia anterior.

O saxofonista californiano é considerado como uma das novas revelações pela crítica especializada dentro do panorama do jazz. Isto deve-se, em parte, à edição do triplo álbum (sim leram bem) de estreia, intitulado adequadamente como “The Epic”.

Com apenas 35 anos, o músico e compositor de não se restringe somente ao jazz, enquanto género musical. Em muitas entrevistas já revelou que cresceu a ouvir tudo um pouco, incluindo hip-hop e soul, apesar de ter estado num meio familiar onde o jazz sempre foi predominante.

A prova da faceta diversificada está imortalizada através da participação no disco “To Pimp A Butterfly” de Kendrick Lamar, um dos álbuns mais aclamados pelo público em 2015. Por isso quando foram anunciados dois concertos em Portugal do saxofonista era expectável que gerasse um  “burburinho” entre fãs e curiosos.

Faltava uma hora antes do concerto e o ambiente junto às portas do emblemático teatro da capital era típico de uma noite de Verão. As t-shirts, calções e as “mangas cava” são reflexo da temperatura que se sentia. No entanto viam-se também alguns “engravatados” e espectadores com idade mais avançada mostrando que o músico que une pessoas de diferentes estratos sociais e de gerações distintas.

Passava-se pelas entradas exteriores do Tivoli e via-se ainda algumas pessoas a comprar os últimos bilhetes que faltavam para lotar a sala de espectáculos de Lisboa. As portas abriram-se meia hora antes da hora marcada do início do espectáculo, às 20:30 e gerou-se uma espécie de “correria pacífica” para os lugares, talvez pela ansiedade em ver o músico a entrar em cena.

O relógio marcava  15 minutos depois das 21 horas, quando as luzes do auditório baixaram suavemente e as portas fecham-se, dando sinal que a “viagem” estaria prestes a começar.

No palco, estavam dois conjuntos de baterias devidamente equipados, com um imponente contra-baixo a separá-las. À frente, encontrava-se um piano-sintetizador e do lado oposto encontravam-se outros suportes de microfone, que completariam o resto da banda.

Na digressão, Kamasi Washington veio acompanhado com uma formação de oito músicos (designado também por octeto), que inclui voz, trombone, para além dos outros instrumentos já referidos.

Para os leitores mais atentos repararam que, pelas contas, falta um músico para completar o conjunto. Pois bem, foi deixado de propósito para fim, porque afinal de contas é um elemento especial. Trata-se nada mais que o pai da “estrela” da noite, Rickey Washington encarregue de tocar saxofone soprano.

Depois de ter tocado a primeira meia hora em septeto, Kamasi apresenta finalmente o derradeiro músico, como a pessoa “responsável por estar no  sítio onde está”.

Com a formação já completa, o clima de comunhão com o espectador consumou-se na sala lisboeta. Os temas que constam no alinhamento apresentam um ponto de equilíbrio, que tanto agrade os fãs de jazz mais “puro” (“Cherokee” e “Clair de Lune”), mas também os apreciadores do género “fusão”, com uma energia “funky” contagiante (“Re Run Home” e “The Rhythmn Changes”).

Apesar de todos os músicos terem tido momentos de protagonismo, como Ryan Porter (trombone), Brandon Coleman (piano e o homem do “funk”), Miles Mosley (contrabaixo), um dos momentos altos foi o que Kamasi Washington chamou de “conversa” à secção de dois solos de bateria em simultâneo, por parte de Tony Austin e Ronald Bruner Jr. Talvez um pouco exagerada e “hiperbólica”, tendo em conta o contexto de jazz que se encontravam.

Entre os devaneios que roçam o domínio absoluto dos instrumentos e a contenção das notas musicais em baladas mais lentas, Kamasi Washington apresenta o espírito jazz dos novos e velhos tempos. A plateia, que já estava rendida após o primeira tema, manifestaram-se ruidosamente durante cerca de duas horas de concerto.

Resta saber agora qual será o próximo passo do saxofonista norte-americano, porque os fiéis já estão rendidos.

João Pardal