Em pleno rescaldo da conquista inédita da selecção portuguesa de futebol, os Iron Maiden vieram apresentar o novíssimo álbum “The Book of Souls” a Lisboa. A sala escolhida foi a Meo Arena, local que já acolheu a banda britânica em três ocasiões diferentes.

A devoção portuguesa pelos “Donzela de Ferro” é já bastante conhecida pelo grande público e resulta numa peregrinação de centenas de pessoas, que vão desde os mais novos até aos fãs de longa data. Existe o espírito de comunhão, que une diferentes classes sociais, ideais  e estilos de vida, em prol dum sentimento comum: gostar de heavy metal.

Horas antes da abrirem as portas, já se juntava uma moldura humana considerável, composta por t-shirts com as diversas reencarnações da mascote “Eddie”.  Mas a habitual moldura de preto foi pintada pelas cores da bandeira nacional, através dos diferentes adereços como cachecóis, dando assim um pormenor curioso à noite que se avizinhava.

Quando as portas abriram às 18 horas, o entusiasmo fez-se notar ainda mais, com uma correria de querer arranjar um melhor lugar. A expectativa de ver Bruce Dickinson de novo em palcos portugueses seria à partida grande, isto porque seria a primeira vez que actua depois de ter vencido a batalha contra um cancro na língua .

A banda de abertura teve ao cargo dos “The Raven Age”, banda liderada por George Harris, filho do baixista dos Iron Maiden. Apenas com um álbum editado, o quinteto londrino apresentou um metal musculado, com guitarras pujantes e uma secção rítmica igualmente intensa.

Os “The Raven Age” já estiveram em Portugal, no concerto a solo de Mark Tremonti, guitarrista dos Alter Bridge e ex-Creed. O vocalista Michael Burrough dirigiu-se algumas vezes ao público agradecendo o apoio do público português e a felicitar os “novos campeões europeus”. Os 45 minutos de actuação deram para aquecer as hostes, mas verdade seja dita, todos estavam à espera dos anfitriões da noite

Com a sala cheia, as luzes baixaram lentamente e as colunas de sons começou a passar o tema “Doctor Doctor” dos UFO, tema que habitualmente prenuncia a entrada da banda em palco. Momentos depois, ouviu-se os primeiras notas de “If Eternity Should Fail”, acompanhado com um vídeo a mostrar o “Eddie” numa paisagem tribal.

A banda foi recebida de forma apoteótica por parte de público. Com palmas e cânticos das letras (mas também dos solos de guitarra), a massa de fãs que se deslocaram para ver a banda com 41 anos de carreira mostrou agrado, do primeiro ao último minuto.

Com os temas do novo álbum a servirem como base do alinhamento, houve também tempo para ouvir hinos como “The Trooper”, “Hallowed be Thy Name” e claro “Fear Of The Dark” para gáudio dos presentes. “Children of The Damned” e “Powerslave” foram provavelmente os momentos mais celebrados pelos fãs de longa data

Juntamente com o Bruce Dickinson, está Steve Harris, o pilar crucial que manteve o rumo do barco. Sem ele a banda não seria a mesma, apesar de ter sofrido algumas modificações no lineup durante os anos.

O concerto foi uma cavalgada a 101% por parte dos Iron Maiden. Uma autêntica lição de humildade, talento e dedicação perante o extenso repertório que os britânicos possuem. Não faltou referência à vitória portuguesa por parte de Bruce Dickinson, que deixou o público delirante, respondendo com gritos de “Por-tu-gal!”.

Das novas músicas destaco “The Red and the Black”, “Death or Glory” e a faixa título do novo álbum, devido à entrada da mascote em palco, sob a forma de robô gigante interagindo com o divertido guitarrista,  Janick Gers.

Já no encore, Steve Harris subiu ao palco envergando uma camisola da selecção portuguesa, confirmando o respeito pelo público português demonstrado ao longo dos anos.

“Number of The Beast” veio acompanhado com a representação do Diabo e efeitos pirotécnicos a simbolizar a descida para o Inferno. Segui-se “Blood Brothers” de “Brave New World” (2000), tema que resume a essência da comunidade “metaleira”, proporcionado um momento de união perante os milhares que se aglomeraram na Meo Arena.

Por fim “Wasted Years”, single do álbum “Somewhere in Time”, tema com 30 anos (!) consagra o que se passou durante duas horas de concerto de puro heavy metal. Bruce Dickinson continua imparável, com uma energia contagiante, que muitos jovens invejavam ter.

Ao décimo e sexto álbum (e ainda por cima duplo) os Iron Maiden continuam a provar o que aquilo se tornaram: uma verdadeira instituição musical. E o concerto do dia 11 de Julho na Meo Arena foi uma celebração do heavy metal. O que aconteceu na noite de dia 11 de Julho foi uma espécie um “grito do ipiranga” versão britânica que defende a genuinidade de fazer música de forma singular, sem pressões de editoras discográficas.

Oxalá que os Iron Maiden nos presenteie com mais discos nos próximos tempos, pois é sempre uma desculpa para visitar Portugal.

João Pardal