Arrancou em pleno clima de praia, sol e férias (pelo menos para a maioria do público presente no recinto), o festival “Sol da Caparica”. Já na terceira edição, a grande atracção do festival é conter um cartaz com o melhor que a música lusófona tem para oferecer. Aliado a um recinto com bastante oferta diversificada de actividades, torna o “Sol da Caparica” como um dos pontos obrigatórios na rota dos festivais de verão.

Comparado com o ano passado, pouco mudou em termos de organização. O preço dos bilhetes é convidativo e permite que o espectador consuma, com “bastante fartura”, concertos de uma variedade de artistas com descendência lusófona. O único ponto negativo é talvez o tempo “contado” de cada actuação, dando pouca margem de manobra para as bandas fazerem inclusões de última hora.

No primeiro dia do festival, o alinhamento de artistas que compunham o palco secundário eram do mais ecléctico possível. Desde as melodias suaves da música angolana Aline Frazão, passando pela intensidade dos versos no rap de Valete, chegando mesmo até à rouquidão de Adolfo Luxúria Canibal dos Mão Morta.

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De Luanda para o Sol da Caparica, Aline Frazão em palco

Ainda com o Sol a raiar no festival, Aline Frazão foi a segunda artista a subir ao palco secundário. Antes dela tinham estado a Orquestra Filarmonia das Beiras, que proporcionaram um momento “erudito” para os poucos espectadores espalhados pela plateia. O público, nesta altura, era já bastante diversificado. Viam-se famílias, adolescentes, adultos, mas apercebia-se que o principal elo que ligava estas pessoas era o prazer de ouvir música ao vivo, num ambiente de verão.

A artista angolana de 28 anos, de guitarra eléctrica em riste, apresentou em formato “best of” os temas dos três álbuns editados. O disco “Insular”, lançado no ano passado, foi o principal ingrediente que apimentou o concerto de Aline Frazão. Com uma percussão discreta, um baixo a comandar o “groove” e ainda um guitarrista e ocasional pianista fizeram com que o público viajasse por momentos ao clima quente de Angola.

Apesar da distância que separa Costa de Caparica de Luanda, a artista teve tempo para construir pontes entre ambos. Fê-lo ao falar da situação política do seu país, mais concretamente do caso do activista Luaty Beirão, acusado de conspirar um golpe de estado. ao governo de José Eduardo dos Santos. Mesmo assim não deixou de (en)cantar o público presente, com uma prestação discreta, mas sentida.

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Marta Ren, um furacão em palco

Já depois das 20 horas e com o sol na Caparica a descer, um octeto de músicos subiram ao palco e começaram a fazer aquilo que se pode chamar de um “prelúdio musical”. Com uma secção de sopros, baixo, guitarra e bateria, avizinhava-se que viria aí uma voz igualmente potente para acompanhar. Cerca de três minutos depois entra em palco vestida de negro e pronta para arrasar, a comandante deste barco chamada Marta Ren.

Agora acompanhada pelos Groovelvets, o registo da artista portuense é de soul revivalista, fazendo lembrar nomes como James Brown ou Marva Whitney de há 40 anos(!). Com esta formação editou o disco de estreia “Stop Look and Listen”, no início deste ano. A noite já se avizinhava no parque de campismo, e com isso começa a correr algum vento e os temas deste álbum representam mesmo uma injecção de energia.

Mesmo com este aparato em palco, a “alma” de Marta parece não ter cativado a atenção da maior parte da plateia que esperavam ansiosamente o concerto do rapper Valete.

“I’m not a regular woman” exclama Marta Ren e a actuação electrizante, incapaz de estar quieta em palco é prova da afirmação da cantora. Temas como “Summer’s Gone”, “Release Me” e “I Wanna Go Back” são todos exemplos da versatilidade enquanto artista. Tem uma sensibilidade pop, um carisma em palco de uma “diva” do soul dos anos 70, e um alcance vocal impressionante, fizeram com que o concerto de Marta Ren e dos “seus” Grovelvets animasse o início da noite no palco secundário.

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Valete tornou-se um “às de espadas” no Sol da Caparica

Já com a noite a tomar conta do “Sol da Caparica”, encontrava-se uma grande massa de público jovem, à espera que Valete subisse ao palco. O conhecido rapper entrou em cena para gáudio dos presentes, daquele que foi, sem dúvidas, o concerto mais aguardado da noite.

A performance repleta de mensagens de crítica social e política, contestando a falta de “ídolos” com valores para as gerações mais novas. “Por favor não se inscrevam na Casa dos Segredos” ou “Não queiram ser a Carolina do Love on Top”, são alguns dos apelos do rapper da Damaia, conseguindo ovações e aplausos por maior parte do público.

Com um espectáculo visual notável, tanto pelos vídeos nos ecrãs gigantes, mas também por parte dos coreógrafos de dança hip-hop. Destaco ainda a inclusão de “performers” como uma bailarina  e da “Vanessa”, protagonista do tema “roleta russa”.

“Fim da Ditadura” mostra o lado político de Valete enquanto que “Os Melhores Anos” revela o sentimento de nostalgia, ao relembrar que, se não fosse o hip-hop, provavelmente teria seguido o caminho de toxicodependência como muitos colegas de rua fizeram.

Valete é rei em palco, verdade que poucos irão discordar. Cheio de atitude e sem “papas na língua” ainda teve tempo para cantar o refrão de “Allright” de Kendrick Lamar, fechando a prestação com chave de ouro.

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Adolfo Luxúria Canibal a dar uma “mão” ao Sol da Caparica

 

Coube aos Mão Morta, liderados pelo inconfundível Adolfo Luxúria Canibal de encerrarem a noite do palco secundário no “Sol da Caparica”. Com uma plateia esvaziada, apenas estavam lá os fãs acérrimos da banda, e uns “curiosos” que não sabiam muito bem o que esperar.

“Irmão da Solidão” deu o mote da actuação, com riffs de guitarra arrastados e o “spoken-word” de Canibal a liderar as hostes. Houve destaque para o último disco “Pelo Meu Relógio são Horas de Matar” de 2014, mas houve tempo para temas mais antigos da banda como “Anarquista Duval” ou “Berlim”.

Ao longo dos anos, a postura de Adolfo Luxúria Canibal em palco pouco se alterou. A irreverência caracterizada por danças pouco convencionais e por poses que deixam qualquer um, em delírio.

Apesar de reconhecerem que estiveram de “poucas palavras”, os Mão Morta compensaram na entrega em palco. O transe do emblemático vocalista, enquanto que a restante banda “destilava ódio” proporcionaram um dos melhores concertos da noite.

Para quem não era fã, não ficou indiferente. Independentemente das circunstâncias, na plateia apenas se encontravam os verdadeiros apreciadores de uma banda, que conta mais de 30 anos de carreira.

Texto e fotos: João Pardal