O ano é 1991. O mundo estava a entrar, lentamente, para a última década do século XX, mas a maioria teimava em querer ficar nos anos 80. O muro de Berlim já tinha caído há dois anos, mas, ao mesmo tempo, os conflitos no Médio Oriente e em Timor começavam a germinar, algo que se iria prolongar por anos futuros.

Mas para adolescentes em 1991 são assuntos que não lhes dizem respeito. As prioridades eram outras. Estar com amigos, lidar com professores aborrecidos e curtir o “momento” (sem se preocuparem com o dia seguinte) fazem parte deste período, que é repleto de alegrias, mas também angustiante.

No início da década a cultura popular norte-americana enfrentava um período de desgaste. Na rádio, por exemplo, ouvia-se baladas pop da Mariah Carey e do Bryan Adams, sobre declarações de amor e “tudo o que fazemos, fazemos por alguém”.

O rock, por outro lado, era dominado pela mesma fórmula gasta sem correr riscos, onde a prioridade era superar a quantidade de laca no cabelo e falar sobre como querer engatar miúdas.

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Vista panorâmica de Seattle. Fotógrafo: Daniel Acker/Bloomberg

Mas sem ninguém prever avizinhava-se um período sombrio. Período esse que iria emergir de uma cidade norte-americana também ela sombria. A cidade era Seattle, que à época era um local de pouco interesse na geografia americana.

A indústria madeireira e a cadeia “Starbucks” eram alguns dos pontos de referência da cidade do estado de Washington. Tinha pouca ou quase nenhuma tradição musical. O guitarrista Jimi Hendrix era o único “grande” nome que tinha aparecido nessa cidade.

Até que uma banda soube responder ao apelo e transformar Seattle num local de culto para milhares de jovens. O líder era Kurt Cobain e depois com Dave Grohl e Krist Novoselic editaram «Nevermind», o disco responsável por “despertar” uma nova época na música e na cultura popular.

Lançado a 24 de Setembro de 1991 pela editora Sub Pop foi a pouco a pouco crescendo de popularidade, culminando na destronação do álbum «Dangerous» de Michael Jackson no início de 1992 da tabela de vendas.

A própria capa do disco era irreverente: um bebé nu a nadar em busca da nota de um dólar. «Smells like teen spirit» foi o primeiro single a ser lançado e serviu como hino de uma geração. «Come as you are», «Lithium» ou «In Bloom» seguiram-se também. A revolução tinha nome e foram três rapazes de Seattle que a fizeram.

             “O disco visto por um músico”

É conhecido pelo nome artístico e é assim que prefere ser conhecido. Alex VanTrue é um dos muitos músicos portugueses influenciados pela banda norte-americana.

Quando Nevermind foi lançado, VanTrue tinha 10 anos, mas só foi, por coincidência, semanas antes da morte de Kurt Cobain em 1994 que os Nirvana lhe despertaram verdadeiramente a atenção do adolescente.

Agora com 35 é músico profissional a tempo inteiro e é reconhecido pelas inúmeras bandas de tributo no activo, entre elas aos Nirvana.

Apesar da conhecida devoção pelos Queen e pelos géneros mais extremos de heavy metal, a banda de Seattle foi-lhe apresentada através do último álbum de originais «In Utero», apesar de conhecer “por alto” os êxitos do Nevermind. A partir daí começou a devorar os restantes discos da banda de Kurt Cobain.

Em retrospectiva, Alex VanTrue sabe apreciar musicalmente a totalidade do disco e chega admitir que é melhor do que «In Utero», em termos de produção.

Os “One Vision“, banda tributo aos Queen, são o projecto mais duradouro para o músico, mas em 2014, ano que assinalavam 20 anos da morte de Kurt Cobain, Alex VanTrue decidiu juntar um grupo para homenagear a data simbólica.

Assim se formaram os “Negative Creeps”, que dão cerca de 10 concertos por ano, isto porque os integrantes da banda têm projectos paralelos.

Alex VanTrue, canhoto tal como Kurt Cobain, admite que o emblemático vocalista era um “desastre” enquanto guitarrista, mas que as letras e a composição dos temas foram algo que lhe disseram muito. Para VanTrue, o segredo para tocar as músicas dos Nirvana consiste na simplicidade dos arranjos na guitarra.

           

              “Vem como tu és

 

Para além do impacto dos temas incluídos em «Nevermind», o culto pela banda de Seattle deveu-se também à figura que Kurt Cobain. O vocalista e guitarrista dos Nirvana tinha um visual “desleixado”, comparado, por exemplo, com a sofisticação dos Bon Jovi.

As camisas axadrezadas de flanela, as calças de ganga rasgadas, os ténis “all-star” marcaram o estilo e a moda pela década adentro e por vezes é visto mesmo como um sinónimo do estilo musical dos Nirvana.

O “grunge” generalizado pelos média da época originou-se quando Mark Arm, vocalista dos Mudhoney, caracterizou o tipo de música que fazia. Depois propagou-se ficando assim a expressão conhecida por classificar os grupos vindos de Seattle.

Seguiram-se exemplos de maior sucesso como os Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains. Depois o fenómeno proliferou-se pelo resto do território norte-americano. Os Stone Temple Pilots de San Diego na Califórnia ou os Smashing Pumpkins de Chicago no estado do Illinois são bandas que aproveitaram a “onda do grunge”.

Apesar do alastramento do fenómeno, os Nirvana foram responsáveis por trazer o interesse destas bandas às grandes editoras, confirmando-se, de facto, que não era uma moda passageira, mas sim um movimento.

             “É normal sermos imperfeitos”

Daniela Azevedo, por outro lado, experienciou o Nevermind em pleno período de ebulição da adolescência. Jornalista na Rádio Comercial e amante de música recorda uma relação mais sentimental. Na altura com 15 anos, o disco representou uma fuga das rotinas e um autêntico grito de que é “normal sentirmos incomodados com os problemas da vida”, como refere.

O primeiro contacto com os Nirvana foi nas matinées, em que, depois dos “temas da moda”, os singles «Smells like teen spirit» ou «Come as you are» a cativaram em momentos de pleno transe musical.

Para as raparigas adolescentes em 1991, Kurt Cobain representava o epítome da rebeldia e os temas de Nevermind espelhavam as angústias e as preocupações, comuns a muitos jovens.

         

 

Os 25 anos de Nevermind faz com que Daniela Azevedo, se sinta uma “velhinha”, confessa esboçando uma gargalhada.

Rapidamente percebeu que, de facto, os Nirvana eram mesmo um fenómeno na música. A flanela, a troca de cassetes, o “passa-palavra” entre colegas de escola foram alguns dos elementos que potenciavam a descoberta dos Nirvana no início da década de 1990.

A jornalista sublinha que as audições do disco eram verdadeiras sessões no sentido literal da palavra. “Quando ouvia tinha que ficar sossegada para apanhar todos os pormenores e compreender as letras”, acrescenta. “Até pedia a uma amiga, que tinha bastante facilidade com o inglês, para confirmar o que ele (Kurt Cobain) cantava”.

         

     “Uma filha do Nevermind”

Filipa Santos Sousa tinha meses de vida quando “Nevermind” entrou nas lojas. A jovem jornalista e blogger em Crónicas da Utopia descobriu os Nirvana também na adolescência, que acabaria por mudar a sua vida. “Descobri o álbum ao ouvir na rádio hits como ‘Smells Like Teen Spirit’ ou ‘Come as you are’. Não demorou muito até me perder de amores e ouvir compulsivamente o disco”, revela a jovem.

Actualmente é bolseira de investigação no Instituto Superior de Engenharia do Porto, mas já esteve envolvida em diversos projectos jornalísticos. A música sempre foi uma parte importante para a vida da blogger, apesar de hoje ouvir sonoridades completamente díspares do “grunge”.

O tema que encerra o disco «Something in the Way» é o favorito porque cada verso retratava eficazmente os seus momentos de tristeza. “De certa forma, funcionava como um remédio para a minha alma”, explica Filipa Santos Sousa.

Para a blogger os 25 anos de Nevermind é também simbólico porque o disco revelar-se-ia “um grande companheiro dos devaneios de adolescente, acompanhando nas horas de euforia e de tormenta”.

     “Eu estou tão feliz porque hoje encontrei os meus amigos

 

O fim da banda em 1994, devido ao suicídio de Kurt Cobain, apanhou a juventude desprevenida. A banda chegou a vir a Portugal no agora extinto Pavilhão Dramático de Cascais cerca de dois meses antes do trágico acontecimento.

Passados 25 anos, o mundo mudou. A indústria musical está radicalmente diferente. Já não se vendem álbuns na forma física da palavra. Os discos de vinil são objectos de colecção e para aficionados do som. Os cds tornaram-se obsoletos e os videoclipes são vistos no Youtube e não na MTV.

Apesar de existirem fenómenos de popularidade na música é difícil prever se haverá um com tanto impacto como a banda de Seattle.

Reportagem: João Pardal