Na dia 13 de Outubro de 2016, o cantautor Bob Dylan tornou-se no primeiro músico a ganhar o Nobel da Literatura, conseguindo assim um feito inédito em 115 anos de História do prémio.

Apesar de ser também autor literário, a academia sueca premiou-o por ter “criado novas expressões poéticas dentro da tradição no cancioneiro norte-americano”.

Mas como assim? As letras de temas musicais podem ser consideradas como material literário? Estará Bob Dylan ao “nível” de outros autores que foram distinguidos como Ernest Hemingway, Gabriel Garcia Marquez ou até o “nosso” José Saramago? Será um ataque institucional ao próprio “Nobel”, devido à aparente falta de consenso de arranjar um nome forte e que não deixe dúvidas sobre a sua atribuição?

De facto são questões deveras complexas e tanto podem ser analisadas por diferentes pontos de vista. Primeiro é necessário desmitificar o seguinte: sim os poemas (sob a forma musical) de Bob Dylan, no meu entender, podem ser considerados como material digno de ser analisado. Passo a explicar:

0027___bob_dylan___blonde_on_blonde_by_sunsetcolors-d8x8q0d.jpg
“Blonde on Blonde”, o décimo-sétimo disco da carreira de Bob Dylan fez 50 anos em 2016.

Desde o início de carreira nos anos 1960, o músico norte-americano sempre foi uma voz crítica da sociedade. Temas como «Blowin in the Wind», «The Times They Are a-Changin’» ou «Masters of War» ressoavam principalmente nos jovens universitários que lutavam pelo fim da discriminação racial e da guerra no Vietname.

Nessa época, Bob Dylan materializava as angústias partilhadas por uma geração. Era o trovador dos tempos modernos e a sua principal arma era a guitarra. A voz ressequida espelha um conjunto de vivências que só alguns possuem, mas transmiti-las e torná-las referências, poucos o conseguem fazer.

No universo académico existem investigadores de estudos literários, que se dedicam parte a analisarem poemas do cantautor. No campo da ficção, o filme “Dangerous Minds” de 1995 com Michelle Pfeiffer retrata o uso da tema «Mr Tamborine Man» numa sala de aula. O objectivo é fazer com que uma turma dita “problemática” entenda figuras de estilo e por conseguinte a poesia de Dylan Thomas, uma das principais influências de Bob Dylan.

Quer se goste ou não, é inegável que o compositor causou impacto na cultura popular e atribuiu identidade ao cancioneiro norte-americano. Com um carácter interventivo, o músico com 75 anos e com dezenas de discos editados é agora distinguido pela academia de elite mundial.

É merecedor? Sim. Terá sido mau timing? Talvez. É um nome óbvio? Não, mas o Nobel ainda possui relevância de destacar o melhor e as mais impactantes obras, independentemente da área.

Por exemplo a vencedora do ano passado Svetlana Alexievich foi laureada devido ao trabalho recolhido pelas entrevistas que fez com as vítimas de Chernoybl, resultando no «Vozes de Chernobyl». Nesse caso também rompeu o dito “modelo clássico” de escolhas óbvias.

Outra questão final que se impõe é a seguinte: Será que Bob Dylan irá marcar presença na cerimónia da academia sueca no dia 10 de Dezembro? É difícil prever e todos esforços feitos para contactá-lo parecem ter sido em vão.

Qual seja o cenário que acontecer, a distinção por parte do Nobel renovou o interesse por Bob Dylan em gerações mais novas (e não só). Basta ver os dados divulgados pelo Spotify pelo aumento do número de “streaming” das músicas do cantor.

É uma escolha “fora da caixa”, mas sem dúvida, que as pessoas não irão esquecer quem foi o vencedor de prémio Nobel da Literatura em 2016 e talvez inspire em fazer a diferença nos dias de hoje.

A lista de personalidades influenciadas pelo músico é também ela quase universal. Desde Barack Obama, Bruce Springsteen, Paul McCartney, Neil Young ou mesmo Jorge Palma são alguns dos exemplos que nutrem uma profunda admiração pela carreira do compositor norte-americano.

A distinção é também uma vitória no reconhecimento da música como forma literária séria e não apenas como meio de entretenimento da cultura de massas.

Talvez seja um sinal de que as coisas estejam a mudar…

João Pardal