No último sábado de Outubro e em vésperas da noite mais “assustadora” do ano, o RCA Club acolheu a festa de lançamento do novo trabalho dos Attick Demons. «Let’s Raise Hell» é o nome do segundo álbum de estúdio e serviu também como principal mote da noite, particularmente recheada “heavy metal lusitano”.

Para muitos, este género musical é mais do que isso. É um estilo de vida e chega mesmo a ser um modo de estar por assim dizer, porque não importa ter cabelo comprido ou ter um emprego normal. O que realmente interessa é ouvir a música e seguir (de forma mais ou menos intensa) o percurso das bandas que se gosta verdadeiramente.

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Ambiente exterior do RCA Club

Passava pouco tempo depois da abertura das portas da sala em Alvalade e já se aglomeravam alguns “metálicos” vestidos a rigor para ocasião. A abudância da cor pretaa, tanto das tshirts como do cabedal, mas também os casacos de ganga são alguns adereços visíveis.

Alguns elementos dos Attick Demons encontravam-se à porta trocando umas breves palavras entre si e com as pessoas que chegavam à hora marcada do evento. À entrada da sala via-se um espaço dedicado ao merchandise, com diversas t-shirts e cds das bandas que iriam subir ao palco do RCA Club.

Cruz de Ferro

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Os Cruz de Ferro não têm papas nem na língua nem na música que tocam

Coube aos Cruz de Ferro de abrir as hostilidades da noite. Vindos de Torres Novas, a sonoridade ouvida tanto enfatiza a técnica musical mas também a personalidade extraída de bandas como os Manowar. Referências à glória aos antepassados portugueses, de batalhas que estimulam a  imaginação e sobretudo da paixão de ouvir “metal” são alguns temas abordados no repertório da banda.

Apesar da seriedade das músicas, o vocalista Ricardo Pombo é responsável de “quebrar o gelo” e proporcionar momentos de divertimento entre os temas. “Vou atirar agora uma palheta. Gostava que fosse uma miúda gira a apanhá-la”, confessa a voz dos Cruz de Ferro. Corrige logo de seguida ao afirmar que “é mais provável que seja o careca que está à minha frente”, provocando uma risada geral na plateia.

Ouvem-se as músicas “Fúria Divina”, “Quinto Império” e “Guerreiros do Metal”. Músicas dos quais denotam todas um sentido de pertença e de superação das adversidades da vida. Durante a curta e não menos marcante atuação, Ricardo Pombo assume também o principal solista da banda, algo pouco comum nos frontman. No meio do concerto, o vocalista deixa uma outra mensagem, que caracteriza bem a essência descontraída dos Cruz de Ferro: “Heavy Metal é a minha paixão… a seguir à pornografia”.

Mindfeeder

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Os holofotes postos em Leonel Silva, vocalista dos Mindfeeder

Apologistas do heavy metal “puro e duro”, os Mindfeeder sobem ao palco pouco depois das 23 horas. O grupo tem acompanhado os Attick Demons em várias ocasiões e por isso é uma escolha óbvia para estar presente no lançamento do segundo disco.

Actualmente os Mindfeeder encontram-se em processo de gravação do novo álbum para suceder o «Endless Storm» de 2013. O alinhamento contou com temas já conhecidos do grande público. Mais uma vez a banda apresentou uma performance equilibrada cheia de notas agudas, tanto da voz, mas também das guitarras e do sintetizador.

“É sempre uma honra tocar com os Attick Demons e esta noite é sem dúvida especial”, desabafa Leonel Silva, vocalista dos Mindfeeder. Apesar da performance ter passado num ápice, o público correspondeu com palmas, punhos no ar e muitas ovações à banda do Barreiro. Que venha o segundo álbum!

Attick Demons

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Quatro em linha com Ricardo Oliveira “escondido” na bateria

Já passava da meia noite quando as luzes baixaram ligeiramente. É o prenúncio que os anfitriões da noite vão fazer o que lhes compete: apresentar o segundo trabalho de originais aos fãs lisboetas. Entram todos os músicos em palco, excepto Artur Almeida que sabiamente entra em passo de corrida ao som dos riffs da guitarra.

A comparação com os britânicos Iron Maiden é inevitável, especialmente no que toca ao registo vocal. Mas o estatuto alcançado com o trabalho árduo das constantes digressões e principalmente no empenho da gravação do “difícil segundo álbum” permite destacar os Attick Demons em relação ao panorama da música pesada em Portugal.

O alinhamento é intercalado entre os temas de «Let’s Raise Hell» com temas do primeiro disco «Atlantis», editado em 2012. «City of Golden Gates», «Back in Time» e «Riding the Storm» são alguns dos mais celebrados, com membros do público a cantar cada verso de cor. Enquanto que «Adamastor», «Nightmare» e «Ritual» são escutadas ao vivo, obtendo uma reacção calorosa por parte do público.

Apesar do novo trabalho, percebe-se que o habitat natural destes “demónios” é mesmo em cima do palco. Os solos épicos de Nuno Martins e de Luís Figueira, uma secção rítmica incansável de João Clemente no baixo e Ricardo Oliveira na bateria são todos elementos fundamentais para o serão de hoje.

Mas o verdadeiro espectáculo é o alcance da voz de Artur Almeida, mas também a sua presença em palco. Durante a hora e meia de concerto nunca se cansou de puxar pelo público por palmas, algo que acaba por contagiar qualquer espectador mais reservado.

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Momento de consagração com todas as bandas em palco

Com dois encores, um deles com todos os elementos dos Cruz de Ferro e Mindfeeder em palco mostra o espírito de companheirismo entre as bandas. Entre sorrisos e abraços o que assistimos é uma reunião entre colegas do mesmo ofício, que celebram um amor comum: o heavy metal.

No final do noite pode-se dizer que os Cruz de Ferro, Mindfeeder e sobretudo so Attick Demons cumpriram a missão com nota bastante positiva. Foi uma noite de apoteose e de devoção dos fiéis da música pesada. O heavy metal português respira boa saúde e recomenda-se.

Texto e fotos: João Pardal