Com o aproximar do final do ano, não quero deixar de fazer um balanço de 2016. À primeira vista foi um ano de “obituário”, devido ao desaparecimento de personalidades mediáticas nas mais diversas áreas. David Bowie foi o “primeiro”, seguiu-se o actor Alan Rickman, depois Glenn Frey dos Eagles, entre outras pessoas conhecidas e acarinhadas pelo grande público.

Em termos gerais, 2016 revelou-se bastante complicado, embora com alguns momentos, que iluminam uma pequena chama para 2017. O «Brexit», a tomada de posse de Donald Trump nos EUA, a “crise” dos refugiados, os confrontos na Síria são todos sinais alarmantes dos quais os líderes mundiais se vão focar em 2017.

Por outro lado a nomeação de António Guterres como secretário de estado da ONU e o fim do embargo de relações entre Cuba e os EUA revelam momentos de esperança num mundo que cada vez mais assume as cores da intolerância, do ódio e da barbárie. No desporto, 2016 ficará na memória dos portugueses devido à conquista inédita do Europeu de futebol em França e da medalha de bronze de Telma Monteiro nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

Feito este minúsculo mas necessário “desvio editorial”, pretendo então anunciar as escolhas de All We Need Is Noise  das figuras de 2016 na música. Contrariamente do que se costuma fazer, apenas vou centrar as minhas opções em temas mais abrangentes, com uma figura líder em cada bloco.

Ano dos Rolling Stones

Sim, os jurássicos Rolling Stones. Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood são sinónimo de rock ‘n roll e todos eles com idade para terem juízo. Mas o grupo britânico conseguiu que 2016 fosse um ano memorável para a mítica banda.

Primeiro porque foram a primeira banda a actuar em Havana depois do fim do embargo de relações políticas. O concerto atraiu quase um milhão de pessoas e foi posteriormente editado em vídeo com o nome «Havana Moon». É um feito histórico, para a banda de Mick Jagger e companhia neste novo período de história, no entanto, em 2005, também os Audioslave actuaram em solo cubano.

Para além do concerto histórico, os Stones regressam à edição de discos, mais de uma década depois de «A Bigger Bang». Este regresso representa muito mais do que “mais um disco da banda”, mas é um tributo às raízes dos Blues, que foram cruciais para construir a identidade da banda, tal como a conhecemos hoje.

Ano do Rap

Em termos de criatividade, de lançamentos musicais e de concertos, 2016 foi marcado por uma presença forte do rap e hip-hop, internacional, mas sobretudo nacional.

Foi o ano de “comeback” de dois nomes gigantes e incontornáveis do hip-hop norte-americano: os A Tribe Called Quest e De La Soul. Ambos editaram novos discos, «Thank you 4 your Service» e «And the Anonymous Nobody» e são discos bastantes coesos dos grupos da “velha escola”. É importante referir que o disco dos A Tribe Called Quest foi o primeiro disco editado após um período de 18 anos sem editar e já também sem o rapper Phife Dawg, uma das muitas vítimas do “sangrento 2016”.

O quarteto nova-iorquino De La Soul editou o novo trabalho com a ajuda dos fãs, após o sucesso da campanha de crowdfunding. Entre os convidados de «And the Anonymous Nobody» constam nomes como Damon Albarn dos Blur, Snoop Dogg, Jill Scott entre outros. O grupo de rappers estiveram também presentes no Super Bock Super Rock, no mesmo dia em que Kendrick Lamar subiu ao palco da esgotada Meo Arena, num dos melhores alinhamentos de sempre para fãs de hip-hop, do qual tive o prazer de presenciar.

Do “barricada” nacional, Mike El Nite foi um dos novos talentos a emergir. Com a edição do primeiro longa-duração intitulado «O Justiceiro», o rapper português apresentou um conjunto de canções como «Santa Maria» ou «Horizontes», que se baseiam em referências ao seu “imaginário infantil” e de video-jogos. Apesar da dicção grave, o disco de hip-hop nacional é, sem dúvida, um caso de “regresso ao futuro”.

Ano da Marta Ren

Não fugindo muito ao tema de “viagens ao passado”, para mim a grande figura na música portuguesa em 2016 é, sem dúvida, Marta Ren. Já o tinha escrito em Fevereiro e de facto comprovou-se. Mas afinal, quem é a Marta Ren? É uma artista de soul, nascida no Porto e com um “vozeirão” que faz lembrar as divas norte-americanas dos anos 1960’s e 1970’s.

Apesar de ter tido outros projectos musicais como os Sloopy Joe e os Bombazines, 2016 viu nascer «Stop, Look, Listen», a estreia a solo de Marta Ren com uma roupagem revivalista semelhante a Charles Bradley e Sharon Jones (falecida também este ano. A sério! 2016 não deu tréguas).

Lançado pela Record Kicks, uma editora italiana, permitiu a Marta Ren e aos seus Groovelvets apresentar os temas do disco nos mais variados palcos europeus. Em Portugal teve passagens pelo festival de verão «Sol da Caparica» e mais recentemente na Casa da Música.

Mais que um retorno às raízes da música “negra”, o disco de Marta Ren é prova viva que existe capacidade de exportar música “made in Portugal”. O festival holandês «Eurosonic» de 2017 será dedicado a artistas portugueses, que contará também com Marta Ren, entre muitos outros convidados.

Será que 2017 irá marcar tanto como 2016? Não faço futurologia, mas acredito que será um ano das oportunidades para a música portuguesa. A aposta do festival «Eurosonic» não pode ser desperdiçada e o público português tem que inverter o padrão negativista de consumo cultural, registado pelo estudo do Eurobarómetro. Será um processo longo e difícil, mas o “caminho faz-se caminhando” e acredito que neste departamento, Portugal tem que mudar urgentemenre.

Texto: João Pardal