Estou a começar a escrever, mas já consigo ouvir os gritos de revolta dos “puristas” quando leram o título: “Não compraste? Devias ter vergonha na cara!” ou “Dizes que és fã, mas ‘fã que é fã’ compra tudo!”. Deixem-me apresentar o meu argumento de defesa, neste que é o verdadeiro tribunal dos tempos que decorrem: a Internet.

Já passaram dois meses da edição de «Hardwired to Self-Destruct», o mais recente trabalho da banda de thrash metal. Seria difícil prever que um grupo de “gadelhudos” vindos de São Francisco, California iriam alcançar o estatuto de “superestrelas” do heavy metal.

A par dos Iron Maiden, os Metallica foram uma das minhas obsessões durante os anos da adolescência. Na altura não havia melhor banda para representar as minhas angústias sob a forma de música e que, de certa forma, dava-me a sensação de liberdade absoluta, para além do gozo tremendo ao ouvir hinos como «Master of Puppets», «One» ou «Enter Sandman».

Consumi de forma religiosa todos os álbuns. Lia as letras na Internet, vi concertos e documentários em casa  e finalmente tive o prazer de assistir ao vivo em duas ocasiões: no festival Super Bock Super Rock em 2007 e no Rock in Rio no ano seguinte.

Quando saiu «Death Magnetic», o tão esperado “regresso” às origens dos Metallica, fiquei empolgado, mas depressa cheguei a perceber que o esforço, por parte da banda teria sido em vão. Afinal de contas, já há muito passaram os tempos em que “Alchoollica” era a alcunha de eleição dos fãs para definir o quarteto norte-americano e o número de dígitos na conta bancária era bastante mais reduzido.

Como fã, fui comprando à medida das minhas possibilidades os cds, os dvds, os vinis e todo o merchandise possível para alimentar o amor pela banda. Cheguei a ter uma parede “forrada” com posters de Metallica no meu quarto. Desses tempos só resta um poster do «St.Anger», que curiosamente foi um presente de aniversário e por motivos sentimentais (ainda) não o retirei.

Sobre o «Hardwired to Self Destruct» e antes que me acusam de pirataria, eu ouvi o novo disco através duma plataforma de streaming legal. Ouvi seguramente mais de 15 vezes de forma ininterrupta(sem contar com as músicas que ouvi avulso) e por isso julgo ter encontrado o “problema”, que me impossibilita considerar o trabalho de James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammet e Robert Trujillo como sendo “merecedor” para ocupar espaço na minha estante.

“Less is More”

É o primeiro álbum duplo na carreira dos Metallica e nos tempos que correm é um risco tremendo. Na cultura da constante rapidez dos clicks online, têm que justificar com um conjunto de canções que sejam memoráveis e que chegue às várias facetas que a banda hoje comporta: o lado melódico das guitarras; o tempo rápido das músicas e finalmente a “mensagem” que cada tema possui.

No entanto, isso não acontece. As músicas estão esticadas ao máximo, para dar aquele sabor que os temas são complexos, mas, na verdade, não o são. O resultado final é confuso e claramente estão à procura da fórmula,  do que fizeram nos álbuns dos anos 1980.

Apesar desta crítica, acredito que o disco tem bons temas. A faixa titulo e «Moth into Flame» são temas que marcam o disco e curiosamente têm ambos menos de seis minutos. «Halo on Fire» e «Spit Out the Bone» são excepção à regra, que pecam pela duração excessiva, mas têm traços da identidade da banda.

As restantes músicas entram na categoria do “enche choriços”. Eu entendo que o tempo de espera entre este álbum com «Death Magnetic» levasse a incluir mais material, mas prefiro sinceramente um disco conciso de meia hora do que um com uma hora e picos, em que estou sempre com o dedo na aparelhagem pronto para fazer “skip”.

Após esta chuva de críticas da minha parte, não digo que o «Hardwired to Self-Destruct» seja um passo errado na carreira dos Metallica. Está longe disso. Sinceramente ainda estou a tentar perceber o que raio foi o «Lulu»? Algo que, na minha opinião, mancha muito mais a carreira com mais de 30 anos.

Este texto é apenas uma confissão de um fã de Metallica que, nos intervalos de escola, ouvia no mp3 «Sanitarium» e imitava o barulho do autoclismo durante o refrão. Sim eu também fui um adolescente parvo e com o próprio avançar de idade, fui aprendendo a gostar de outras coisas.

Como se costuma dizer, “não há amor como o primeiro” e os Metallica, os titãs do heavy metal mundial, terão sempre um espaço reservado, pois sem eles não teria aprendido a gostar de música “a sério”.

Texto: João Pardal