Pelo terceiro ano consecutivo, a Academia de Linda-a-Velha recebeu o LVHC Fest. O festival pretende afirmar-se dentro do circuito do “hardcore”, apesar dos organizadores apostarem num leque diversificado de bandas ligadas ao género musical.

O evento decorreu no último fim de semana de Janeiro, nos dias 28 e 29 mas devido a motivos profissionais, não estive presente no primeiro dia.

Chego pouco antes do inicio do primeiro concerto, marcado para as 16 horas. No exterior da Academia, é possível observar um conjunto de pessoas a conversar, parte delas a aproveitar para fumar um último cigarro, antes de entrar na sala. Entre elas estão espectadores e alguns músicos que vão tocar no festival. O ambiente é de festa, copos e sobretudo boa disposição para se ouvir música mais “pesada” como forma de escapar à rotina semanal.

O cartaz deste dia apresenta uma amostra musical do Hardcore, relativamente às diferentes gerações que atravessam este género. Desde os estreantes Fonte, passando pelos veteranos Simbiose e até à “banda da casa”, os Trinta e Um.

Fonte

Os recém-nascidos Fonte são a nova banda a emergir da cena do hardcore do LVHC (Linda-a-Velha Hardcore). Sendo o concerto de estreia absoluta para os jovens que mesmo com poucas músicas no repertório, não se fizeram intimidar pelo palco da Academia.

Com o tema «Fontes não morreu», já com teledisco disponível no Youtube, foi um dos pontos altos do concerto de apresentação. «Cinco Tiros» merece também destaque, devido à bateria pulsante a marcar o compasso, como se tratasse de disparos duma metralhadora.

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Os Fonte foram a banda que abriu o segundo dia do LVHC Fest

Nostragamus

Tal como Inês Menezes tinha anunciado, o concerto dos Nostragamus era algo aguardado há algum tempo pela vocalista. Apesar da curta duração da performance, a banda já mostra sinais de estar cada vez mais sólida nas atuações. “Estão com medo de vir para à frente ou ainda estão com ressaca de ontem?”, provoca Inês.

A crítica social e a agressividade da banda em «Inquisição» é recebida pelo público resultando nos primeiros “mosh” e “headbangs”. A curta passagem dos Nostragamus não impediu que a vocalista deixasse uma palavra de homenagem ao falecido Rui Rocker, guitarrista dos Crise Total e principal mentor da sua carreira musical.

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Nostragramus em palco seu “habitat natural”

FPM

Os FPM (Feio Porco e Mau) vieram a Linda-a-Velha proporcionar um hardcore “modernizado”, com influências de bandas como os Bring Me The Horizon, especialmente na área da voz. Vindos de Alvalade, a banda não arredou pé e proporcionou um concerto igualmente intenso.

No activo desde 2010, são um caso sério no panorama musical e justos herdeiros da mesma cena musical, onde emergiram, por exemplo, os Censurados. Ouviram-se os temas como «Coma», «Contraste», «Poluição» e uma versão de «Já Estou Farto» dos Ku de Judas, todas elas, exemplo do punk hardcore que praticam (e bem).

Reality Slap

Desculpem o trocadilho óbvio, mas a verdade é que não há maior “chapada” que os temas desta banda. Já com uma experiência vasta em concertos e com um novo disco editado, os Reality Slap apresentaram-se na Academia como autênticos anfitriões da matiné.

Apesar de já terem tocado no mesmo espaço, o vocalista não deixa de agradecer à organização o convite para atuarem no festival. “Faz falta mais eventos como este e por isso cabe a vocês apoiarem nestes momentos!”, desabafa o vocalista para o público que reage com aplausos e ovações. É visível que a lotação do espaço já se encontra com meia casa preenchida.

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Reality Slap em toda a sua “pujança”

Simbiose

No panorama mais pesado. já não é necessário fazer apresentações aos Simbiose. Com 25 anos de carreira, celebrados no ano passado com um concerto nos Nirvana Studios em Barcarena, a banda de crust não dá sinais de abrandamento, nem de desgaste.

Já se perdeu o número de vezes que os Simbiose, liderados pelo carismático Johnny Simbiose, subiram ao palco neste espaço. Com uma sonoridade semelhante a Napalm Death e sem álbum novo para mostrar, a banda centrou a sua atuação em libertar verdadeiras ondas de energia, que o público respondeu sob a forma de “mosh” e “crowdsurf”.

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Adrenalina total com os Simbiose

Steal Your Crown

Uma banda que é dos casos sério enquanto referência na cena hardcore nacional. O sentimento de comunhão entre os elementos da banda é evidente. As influências da sonoridade está mais ligada à cena norte-americana como Bad Brains ou Agnostic Front.

O público reagiu com slam dancing e muito headbangin’. Temas como «Family Business» ou «I Walk Tall» mostram bem a intensidade da música que praticam. Melhor que ler é mesmo ver o vídeo abaixo.

 

Crise Total

Já com mais de 30 anos de carreira, os Crise Total foram pioneiros da “música pesada” em Portugal, tendo se apresentado no concurso “Rock Rendez Vous” nos anos 1980. O público, presente na Academia, acolheram os Crise Total com toda “pompa e circunstância”.

Sempre com um tom de crítica social dos temas mais antigos (que continua a fazer sentido em 2017), o concerto dos Crise Total é um dos concertos mais marcantes e que vai ser recordado para a posterioridade da segunda edição do LVHC Fest.

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Os Crise Total “endiabrados” em palco

Trinta e Um

Como é habitual, as hostilidades do LVHC Fest são encerradas pela “banda da casa” e que dá o mote de todo o festival. Os Trinta e Um vivem uma “segunda vida” e estão neste momento a preparar o esperado novo álbum. Não há truques no concerto da banda liderada pelo vocalista Hugo Lourenço, mais conhecido pela alcunha Zé Goblin. É Hardcore do estado mais cru possível.

Os temas como «O Cavalo Mata!», «Coma 85» ou «Devo Ódio ao Mundo» são todos entoados em plenos pulmões pela Academia de Linda-a-Velha. Outro música impactante da atuação é «Tourada», música de protesto à chamada “tradição de merda”, como refere o vocalista.

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Os Trinta e Um: “Uma luz ao fundo do túnel”

No meio do concerto, existe um momento de tensão entre dois espectadores, algo raro de acontecer mas não impossível. Qual é a resposta do Goblin à situação? Dar um abraço a um dos protagonistas do incidente.

É com esta atitude que Hugo Lourenço dá uma autêntica “chapada de luva branca” à violência e acaba por marcar pela positiva, o fim da terceira edição do LVHC Fest. Apesar dos esterótipos deste estilo musical, o Hardcore é apenas uma forma de retratar a realidade, mesmo que não seja feita nos moldes “socialmente aceites”.

Como foi descrito em inúmeras situações ao longo do evento é necessário o apoio do público para as bandas do “underground” consigam sustentar-se. Ao longo desta matiné a ideia que “a união faz a força” é essencial para conseguir este feito. Dado a colaboração das bandas de diferentes gerações provou-se  que, de facto, é possível concretizar um festival com boa organização, desde que haja poder de iniciativa.

É a terceira vez que presenciei o festival e devo dizer que o evento ganhou ainda mais ímpeto. O objectivo é claro: “Criar uma tradição” como realçou Zé Goblin durante o concerto. Pelo andar da carruagem, todos os esforços parecem indicar que o desejo de Goblin se concretize. A promessa de regressar em 2018 é já uma garantia absoluta e o nisso ninguém tem dúvidas.

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Colecção pessoal das pulseiras dos LVHC Fest. A primeira edição decorreu em data única no dia 31 de Janeiro de 2015.

Texto: João Pardal. Fotografias tiradas com o telemóvel LG G4s.