“E vimos e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho para ser o Salvador do mundo”
(Evangelho segundo S. João. Capítulo 1. 4:14)

No passado domingo, dia 5 de Março, Salvador Sobral foi o escolhido para representar Portugal no Festival da Eurovisão em Kiev. O tema escolhido chama-se «Amar pelos Dois» e foi escrito pela irmã Luísa. É um justo vencedor? É desta que ganhamos? Ou, em cenários mais realistas, conseguimos um lugar no pódio?

Nos últimos sete anos do Festival, creio que nunca vi um tema tão divergente na opinião pública, com a única excepção, sendo os Homens da Luta. Uns adoram, outros detestam e há pessoas que não querem saber, porque simplesmente não se interessam pelo festival da canção para nada.

Com este artigo, não quero de todo ir para o campo de batalha do século XXI, que são as caixas de comentários nas páginas de redes sociais. Discutir a qualidade do tema musical não é o meu objetivo, porque respeito a máxima “gostos não se discutem”. O que pode ser genial para uns, pode ser um autêntico esterco para outros.

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Amostra de comentários de “ódio”, recolhidos em algumas das principais páginas de facebook de jornais.

É preciso ressalvar que todos os participantes são músicos dedicados à sua arte. A maior parte dos “comuns mortais” estão alheios ao processo criativo que envolve criar um tema musical. A letra, os arranjos musicais e por fim juntar os dois elementos são apenas ingredientes necessários para formar uma peça musical. Isto sem estar a contar a entrega dos músicos em questão, que exige anos de estudo para aperfeiçoar.

Quando falamos do Festival da Eurovisão, prova que Portugal nunca conseguiu vencer uma única edição desde a primeira participação em 1964, considero que faz todo o sentido colocar a seguinte questão: Vale ainda a pena tentar?

Depois de «Playback», «O Conquistador», «Lusitana Paixão», «Chamar a Música» (as duas últimas são algumas das mais bem classificadas de sempre) existe mesmo necessidade de insistir na participação neste festival? Existem bandas que lutam diariamente para ter reconhecimento e mesmo assim são desprezadas pelo grande público, quando tentam distinguir-se no mercado.

No início deste ano, o festival Eurosonic na Holanda deu destaque a Portugal como país convidado. Foram mais de 10 nomes a subirem ao palco. Estiveram nomes como Marta Ren, Gisela João, Noiserv, The Gift são apenas alguns dos nomes que encantaram o público deste festival.

Será que temos de ir lá para fora, para depois sermos reconhecidos cá dentro?

É verdade que muito mudou desde os tempos de «E depois do Adeus» de Paulo de Carvalho ou «A desfolhada» de Simone de Oliveira. Em plena época de ditadura, o Festival da Canção tinha o poder de fazer com que as pessoas ficassem coladas ao ecrã e emocionar-se com as canções de alguns dos maiores intérpretes na música portuguesa de sempre.

Nos anos 1980 e com a explosão da cor na televisão pública, surgiram alguns dos momentos mais pop que Portugal conseguiu produzir. Por exemplo, o tema «Não sejas mau para mim» da Dora tem todo ele uma aura Madonna misturada com a irreverência de Cyndi Lauper.

Mas será que é desta? Será que o sujeito com “casaco de mendigo” e os “maneirismos de Gollum” vai quebrar a maldição portuguesa na Eurovisão? Será que vai superar o sexto lugar obtido por Lúcia Moniz em 1996? Pelos comentários do vídeo no Youtube abaixo, parece que muito público estrangeiro está aderir à melodia de «Amar pelos Dois»

Mas será este o público que vota? Será que o jurí vai sentir o mesmo na primeira semi-final marcada para dia 9 de Maio?

Tantas interrogações e ainda faltam alguns meses para saber a resposta. Resta agora esperar que o Salvador seja, desculpem o pleonasmo, o Salvador de Portugal (na Eurovisão claro).

Texto: João Pardal