Depois do fiasco que foi a atuação do Rock in Rio no ano passado, os Korn regressaram a Portugal para um concerto praticamente lotado na Praça de Touros do Campo Pequeno. Apesar do clima de descontentamento geral, em grande parte devido ao facto de não ter havido reembolso dos bilhetes, o público respondeu novamente à chamada da banda de Jonathan Davis e companhia.

Felizmente não estive no Rock In Rio, graças a compromissos musicais, mas se não os tivesse era bem provável que estivesse estado presente na maior “barracada” que o festival alguma vez organizou. Afinal de contas, Korn foi uma das bandas que marcou a minha adolescência e um dos objetivos que defini na altura seria vê-los ao vivo.

Neste período, onde as preocupações consistem em “aturar professores secantes” e “divertir-se o máximo possível”, a adolescência é também uma fase de (re)descoberta e que molda, em definitivo, algumas características da nossa personalidade. O que ouvimos, o que vemos, o que fazemos e sobretudo o que sentimos são todos elementos que, somados, criam um conjunto de valores que nos vão marcar para o resto da vida.

Na música, entre os “velhotes” Iron Maiden e os Metallica, houve espaço para descobrir um grupo norte-americano chamado Korn. Não sei precisar o momento em que tenha noção da sua existência, mas creio que foi na altura que lançaram o «Greatest Hits Vol.1» em 2004, quando ouvi um dos inéditos lançados nessa compilação: a versão de «Word Up» de Cameo.

É recordar que, na época, era fiel espectador da MTV Portugal, no tempo que ainda passava telediscos e era um espaço que, para um jovem com os seus 14/15 anos, podia descobrir música nova. Para um jovem sedento por descobrir coisas diferentes para assistir, o vídeo do tema «Word Up» causou-me impacto. Talvez pela irreverência de ter os elementos a ganhar forma de cães rafeiros (com os rostos sobrepostos nos focinhos dos animais caninos) com o único objetivo de ir a uma festa repleta de mulheres desnudadas.

Depois foi percebendo que os Korn já tinham alguns anos de carreira e estiveram em Portugal algumas vezes. «Freak on a Leash», «Here to Stay», «Blind» «A.D.I.D.A.S.» foram músicas que me despertaram interesse e, de facto, percebi que Korn era uma banda que me “ouvia” e sabia dar uma resposta às preocupações que os jovens adolescentes sentem.

Ocupado com a “maldita” Matemática A e a “abominável” Fisico-Química, soube que a banda vinha a Portugal no Pavilhão Atlântico. “Epá adorava ir!” pensava o meu “eu” de 16 anos, mas tendo em conta os meus “pouco convincentes” resultados escolares, aliada com a questão que não tinha hábito de ir a concertos de forma regular, acabei por não ir. “Posso não ir, mas a próxima vez que eles vierem cá, não vou faltar!” e assim fazia uma promessa a mim mesmo:

“Próximo concerto de Korn estou lá batido!”

O tempo foi passando e as minhas prioridades foram mudando, mas no fundo, havia algo da adolescência por resolver. Em 2017, quase uma década depois, foi-me dada novamente oportunidade para concluir “oficialmente” esta fase da vida.

Mal cheguei às imediações do recinto, encontrei uma enorme moldura humana sob a forma de duas filas que contornavam a Praça de Touros. Faltavam poucos minutos para as portas se abrirem e nervosismo estava patente na cara de alguns espectadores.

A faixa etária do público era surpreendentemente diversa: viam-se miúdos adolescentes, malta na casa dos 20 anos e por fim fãs da velha guarda que não arredaram pé e vieram ver a banda. Por conversa de circunstância falei com dois amigos que vieram de Faro de propósito “acabar com o concerto” que começaram a ver no Rock In Rio.

Já sentado na zona da bancada, porque os bilhetes para a plateia em pé estavam esgotados, esperava, também, com algum nervosismo, que o concerto começasse. Afinal de contas iria ver, dentro de poucas horas, os meus “heróis”. Depois de vários anos a ver gravações de concertos em casa, assistir entrevistas e a acompanhar o progresso da carreira, o concerto de hoje é como se tratasse de uma viagem para os tempos de escola.

Passavam poucos minutos das 22 horas, quando as luzes se baixaram para dar lugar à histeria em pleno Campo Pequeno. A banda entra em palco e toma o público de assalto com «Right Now», o que provocou os primeiros saltos e mosh do serão. Seguiu-se o verdadeiro “tremor de terra” que é o tema «Here To Stay» e dou por mim que estou também aos saltos e a cantar em plenos pulmões, as músicas que ouvia vezes sem conta nos intervalos da escola.

O vocalista Jonathan Davis está na maior parte do tempo agarrado ao habitual tripé de microfone com uma silhueta feminina “sugestiva”. O momento atual da banda encontra-se a promover o «The Serenity of Suffering», o décimo-segundo disco e por isso, apesar, de ser uma banda cujo auge já foi há muito, conseguiu consolidar uma base de fãs sólida, a julgar pela multidão que se encontra no recinto.

Depois de «Rotting in Vain», regressamos aos hinos da banda como «Somebody Someone» e, para meu espanto, «Word Up» e «Coming Undone», duas músicas do período onde descobri Korn. A viagem foi mesmo consumada através destes últimos dois temas. Sinto que o tempo não passou.

De poucas palavras, Jonathan Davis dirige-se, pela primeira vez, ao público português sobre o incidente do ano passado. “Do fundo do nosso coração pedimos desculpa pelo que aconteceu”, afirma Davis. “A culpa não foi nossa, nem foi do Rock In Rio. São coisas que acontecem e mais uma vez pedimos desculpa, mas agora estamos aqui para nos divertir!”, conclui o vocalista “politicamente correcto”, conseguindo uma reação calorosa por parte do público.

Com a excepção de «Got the Life», os grandes êxitos não foram esquecidos como «Y’all want a Single», «Freak on a Leash» e «Falling Away From Me», assim como os temas que agradam os fãs da velha guarda como «Good God» e «Blind».

Apesar da competente atuação (que deveria ter sido de maior duração), durante hora e meia voltei a ter 16 anos e finalmente posso dizer que no dia 15 de Março de 2017, a minha adolescência acabou. É pena que as pernas, não aguentem o ritmo dos saltos que dei.

Crónica/Reportagem: João Pardal