“Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada” – Os Vampiros (Zeca Afonso)

2017 tem sido o ano em que todas as bandas vêm a Portugal. Parece que houve um pacto do qual todos os artistas musicais se uniram e decidiram que o nosso país é um destino obrigatório a incluir nas mais recentes digressões mundiais. Quase que aposto que quem não vier a Portugal pode ser o motivo de risota no próximo encontro conjunto entre eles.

Desde Depeche Mode, Sting, Herbie Hancock ou Red Hot Chilli Peppers, a lista é quase infinita de nomes notórios que passam cá. Do espectro do Hard Rock, os Aerosmith e os Guns N’ Roses são dois dos mais esperados. Os primeiros estão em jeito de “despedida” dos concertos, enquanto que os segundos encontram-se em mais uma extensão da digressão, que conseguiu juntar Axl Rose, Slash e Duff no mesmo palco.

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Em 2012, os Metallica arrastaram cerca de 45 mil pessoas ao festival Rock In Rio (foto HornsUpRocks)

Mas, no meio de tanta oferta, há espaço para que os gigantes do metal norte-americano anunciarem uma digressão mundial, que inclui (por enquanto) uma data na Meo Arena em Fevereiro de 2018(!). E, pasmem-se, o concerto encontra-se esgotado. Sim leram bem. Cerca de 15 mil pessoas vão lotar o espaço da maior sala de espetáculos do país.

Mas como isto é possível? Como é que uma banda que deu sete concertos em terras lusas num espaço de 13 anos, sendo que quatro deles foram em anos consecutivos (de 2007 até 2010), conseguem fazer de esgotar em duas semanas a Meo Arena?

2012 marca a última vez que os Metallica estiveram em solo nacional no Rock In Rio, ano do qual tocaram na íntegra o álbum negro. Mas mesmo assim o público não parece estar “farto” da presença do quarteto norte-americano.

É de sublinhar que o preço dos bilhetes rondam os 50 e os 80 euros. Por outras palavras: nada baratos. Os Metallica têm um novo disco que demorou oito anos para ser concebido. Entre flops financeiros com o Orion Festival e o filme-concerto «Through The Never», a banda norte-americana parece ter encontrado novamente a “galinha dos ovos de ouro” dos próximos anos.

Nada contra o estatuto “maior que a vida” que os Metallica atualmente detêm e não há nenhum problema ouvir a banda. O problema que chamo à ribalta são os denominados fãs que vão aos concertos e que enchem os cofres da instituição máxima do metal a nível mundial.

Só porque compraram uma t-shirt na Zara ou porque ouvem no Spotify o «Enter Sandman» ou «Master of Puppets» não fazem de vocês automaticamente fãs incondicionais da banda de Lars Ulrich e companhia. Longe estão os tempos em que ouvir uma banda era um compromisso. Falta o contacto que uma pessoa tinha em ter um leitor dos cds com um CD gravado a mão “Metalica Master of pupets” (as gralhas são propositadas).

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Justin Bieber com uma t-shirt dos Metallica (foto thehunt.com)

Mas de quem é a culpa afinal? É das novas gerações? É dos Metallica? Sinceramente acho que é de ambos, porque os Metallica já são mais do que uma banda; são uma marca, que fatura milhões por ano e é também um caso de “amor-ódio” que divide opiniões. Apesar das muitas decisões controversas, que quase levaram à sua autodestruição, superaram as adversidades e fizeram “render o peixe”.

Quando começaram na garagem, nunca – repito – nunca imaginaram que seriam uma das maiores bandas da “pesada” no planeta. Nesse sentido, parece que o público de massas não tem autonomia para descobrir outras bandas e criar novos movimentos. É de recordar que o último verdadeiramente impactante foram os Nirvana e todo o movimento grunge, no início dos anos 1990 (há 20 e tal anos mais coisa menos coisa).

Não estará na hora de “abrir a pestana” e descobrir novos grupos musicais, em vez de gastar dinheiro sempre nas bandas consagradas? Quando os Metallica se “reformarem” ficamos com que banda a substituir esse vazio?

 

Crónica: João Pardal