Passam poucos minutos depois das 23 horas. Já falta pouco para o dia acabar. Mais uma jornada de obrigações e deveres cumpridos com imensas preocupações à mistura, mas mesmo assim não consigo tirar o Chris Cornell no meu pensamento. Foi com ele que, pelos piores motivos, comecei o dia. Fiquei em estado de choque quando vi no meu smartphone, a trágica notícia da sua morte logo pela manhã.

Mas como é possível? Só podem ser fake news, que infelizmente andam muito em voga. Mas ao aperceber que estava em negação, não queria aceitar no que tinha acabado de ler. A voz de «Black Hole Sun», «Spoonman», «Rusty Cage», «Burden in my Hand» e tantos outros temas que fizeram parte das playlists durante os anos 1990 decidiu terminar com a sua própria vida aos 52 anos de idade.

Para perceberem a minha dor, sinto com a obrigação de explicar que sempre fui um apaixonado por música. Essa paixão deve-se em grande parte ao meu fascínio pelo rock alternativo vindo de Seattle: o denominado grunge e que infestou a cultura popular norte-americana nessa década.

Anos mais tarde quando passei pelo período da adolescência e o meu cabelo era comprido (que na verdade era uma gadelha), descobri a pouco e pouco todo o género musical. Primeiro os inevitáveis Nirvana, depois os incontornáveis Pearl Jam e por fim duas bandas: os Alice in Chains e os Soundgarden.

A estética da flanela, a distorção das guitarras e sobretudo os gritos estridentes de Cornell fizeram com que me tornasse um acólito do movimento grunge, mesmo que se tenham passados muitos anos depois do boom. Tentei reproduzir ao máximo a experiência, o que por sua vez, significou estar à procura de roupa que se assemelhasse o visual da época.

No meu leitor de mp3 tinha as músicas prontas para ouvir e nos tempos livres tentava procurar saber mais sobre estas bandas. Entretanto apercebo-me que o Chris Cornell tem outros grupos como os Audioslave, que apresentava variáveis um pouco diferentes.

Neste grupo havia uma outra pujança. Tinha um peso associado, que obrigava o ouvinte “abanar o capacete” e vibrar com os acordes frenéticos de Tom Morello, o inconfundível guitarrista dos Rage Against the Machine. Não era a mesma coisa que Soundgarden, mas à falta de melhor, saciava a minha fome de novo material do grupo de Seattle.

Das poucas ocasiões que Chris Cornell esteve em Portugal, era demasiado pequeno e incapaz de apreciar um bom espetáculo de rock. A última vez que pisou um palco nacional ocorreu no Alive em 2009, ano da qual tive o prazer de ver ao vivo Alice in Chains e os Faith no More, concertos dos quais me marcaram profundamente.

Felizmente transmitiram parte do concerto em televisão e assisti de forma religiosa: Colado ao ecrã, curti como se estivesse no recinto. Apesar de ter sido numa fase que tentaste, sem sucesso, seguir uma carreira pop, não me importei minimamente porque tinhas uma carreira anterior que justificava o teu legado. Agora disponível numa rápida pesquisa no Youtube, lembro-me de ter ficado destroçado quando cortaram a emissão por motivos logísticos, mas nada podia fazer.

Os pormenores são ainda escassos, mas ao que tudo indica decidiste acabar com a tua própria vida. Não sei os motivos, mas nunca me passou pela cabeça que estivesses mal contigo mesmo. Estejas onde estiveres, espero que tenhas noção que vais continuar a mudar a vida de muitas pessoas.

Por isto e por muito mais que não consigo escrever aqui, não posso deixar de expressar a minha gratidão: Obrigado por me teres proporcionado momentos inesquecíveis. Obrigado por me teres acompanhado em períodos difíceis. Mas, sobretudo, obrigado pela música que nos deixaste.

Escrevi este texto acompanhado pelo disco acústico «Songbook» e curiosamente quando estou a acabar de escrever as últimas frases, a aparelhagem começa a tocar «Doesn’t Remind Me». Caramba Chris Cornell. Mudaste para sempre a minha vida e nunca tive oportunidade de ver um concerto teu. Resta agora estar em constante devoção com a obra que nos deixaste.

“Heaven sent hell away. No one sings like you anymore”

Crónica: João Pardal