Entre aulas de universidade, estágios, concertos e horas passadas frente ao computador a escrever, dou por mim a pensar: caneco já chegamos a metade do ano de 2017. No meio dos deveres e fazeres, tenho felizmente ouvido os novos discos que têm aparecido por aí.

Com internet à minha disposição, mais concretamente, os serviços de streaming, possibilita-me estar atualizado dentro do possível.

Alguns são revivalismos inesperados e outros são talentos promissores, fiz uma escolha de cinco discos essenciais para ouvir. Podem não ser os melhores álbuns até agora, mas refletem um pouco das minhas preferências, nos mais variados géneros musicais.

Apenas têm de respeitar um critério: são todos discos editados até Junho deste ano.

Sem ordem específica, estas são as minhas escolhas, como os “discos obrigatórios” a ouvir nesta altura do “campeonato”:

Roger Waters – Is This The Life We Want?

“Dinossauro do rock” dirão uns, um “velho do Restelo” dirão outros, mas a verdade é que Roger Waters compôs um álbum que tem tudo para se afirmar como um dos discos mais importantes da sua carreira. É o quinto da sua discografia a “solo”, sendo que o anterior foi editado há 25 anos. Neste álbum, o eterno baixista dos Pink Floyd questiona o público se “esta é a vida que queremos mesmo”.

Sendo uma voz ativa e bastante crítica ao presidente Donald Trump, o septuagenário faz alegorias sob a forma de música, que espelham a realidade recheada de injustiças sociais. É um daqueles álbuns que temos que estar sentados e mastigar cada nota e verso que o senhor Roger Waters gravou em estúdio.

Depeche Mode – Spirit

Visionários desde o início, os Depeche Mode são, em 2017, uma instituição incontestável da música electrónica alternativa. Longe do período “pop dancável” de «I Just Can’t Get Enough», Dave Gahan e companhia sempre produziram música com mensagens políticas e religiosas. Desde os tempos de «Violator» e «Songs of Faith and Devotion» que esta faceta se tornou ainda mais evidente.

«Spirit» é um disco sombrio com uma abordagem de sintetizadores, que me fazem lembrar os ambientes negros produzidos por Trent Reznor nos “seus” Nine Inch Nails. O single «Where’s the Revolution», que me surpreendeu na altura que foi lançado, é mesmo a porta de entrada para iniciarmos uma viagem sobre as paisagens sonoras que os Depeche Mode pintaram em quase 50 minutos de música nova.

Slow J – The Art of Slowing Down

Um dos artistas emergentes da nova vaga de hip-hop nacional, o rapper Slow J lançou o seu primeiro álbum de longa duração. «The Art of Slowing Down» é um registo pessoal, com identidade única e com um estilo muito próprio. Não existem discos iguais a este. Não é apenas mais um disco de um “rapper”. É um disco do Slow J.

«Sonhei Para Dentro», «Vida Boa» e «Mun’dança» são alguns dos temas que se destacam. Menção honrosa para «Às Vezes» com Nerve, como sendo uma colaboração mais do que perfeita. Para quando um projeto em conjunto? Slow J é, seguramente, uma aposta com futuro no hip-hop português.

Gorillaz – Humanz

Confesso que tive muitas dúvidas de incluir este disco. Não é que esteja mau, mas, a meu ver, perde o rumo, devido ao “excesso” de convidados que a banda virtual Gorillaz trouxe para «Humanz». O elenco é de luxo e por isso os holofotes recaem-se sobre eles. Nomes como Benjamim Clementine, Jehnny Beth (das Savages), Grace Jones são apenas alguns dos nomes que sobressaem.

Mas após repetidas audições, apercebo-me que o disco é indispensável e merecedor de ser comprado em formato físico. Não é o melhor álbum que o grupo britânico propocionou, mas, à semelhança dos anteriores, elevam a fasquia e “mudam as regras do jogo”.

Quais regras perguntam vocês? Contraponho com a seguinte questão: quais são as bandas, dos quais os seus membros são imagens criados por um computador? No Japão existem alguns exemplos disto. E no resto do mundo? Quando acontecerá? No caso do ocidente, já houve experiências com hologramas do Dio, mas quando isto se tornará norma? Independentemente da resposta, a verdade é que os Gorillaz já o fazem desde 2001. Pensem nisso.

Ibéria – Much Higher Than Hope

“Esperança é a última a morrer”? Sim. É uma frase cliché, mas neste disco, a meu ver, é perfeitamente adequado. Entre mudanças de “lineups” e ausências de edição de trabalhos discográficos, os Ibéria são um dos pilares do “rock n’ roll” feito em solo nacional. Com este disco, respira-se novamente e desta vez, mais fortes que nunca.

Com solos de guitarra que obrigam a fazer “air guitar” («The End of Days») e uma sonoridade “sem espinhas” («Living a Lie»), o melhor que este álbum tem para oferecer encontra-se, curiosamente, no fim.

«Poisoned», a última faixa do disco, ouve-se uma das mais emotivas e memoráveis, desde há algum tempo. É mesmo daquelas para se ouvir num concerto com um isqueiro no ar.

Texto: João Pardal