Era um dos concertos mais esperados do ano: Aerosmith na Meo Arena. 18 anos depois do último concerto em Portugal, a banda norte-americana aterra em Lisboa naquela que será a derradeira oportunidade de os ver.

“Aero-vederci Baby!” é o nome da digressão e prometia revisitar os 40 anos de carreira do grupo que imortalizou Steven Tyler e Joe Perry como deuses do Hard Rock norte-americano. Os “Toxic Twins”, como são conhecidos, são responsáveis por serem a banda sonora de muitos temas “sem espinhas” e de algumas das baladas incofundíveis do Rock FM.

Quem não cantou «Crazy», «I Don’t Wanna Miss a Thing» ou «Dream On» enquanto conduz um carro descapotável, tal como Liv Tyler e Alicia Silverstone? Ou então trautear o riff de «Walk This Way»? Se não o fizeram, o que se passa com vocês? No meu caso, a única diferença é que o fiz com as janelas abertas do meu Peugeot, porque não tenho descapotável.

Fora este pequeno aparte, eu, como maior parte dos fãs de Aerosmith, conheceu a banda através das ondas da rádio. Apesar de serem “comerciais”, é impressionante como estes temas ficam connosco. Parece que entranham em nós, sem pedir licença, e depois ficam lá connosco, como uma tatuagem se tratasse.

Depois do primeiro embate, sempre tive um fascínio pelo grupo de Boston porque, ao contrário de outros, tiveram uma presença forte em vários produtos que ultrapassam os musicais. Dos que marcaram pessoalmente, relembro a participação num episódio dos “Simpsons”; serem figuras de um video-jogo arcade e por fim, providenciaram a banda sonora de uma montanha russa em parques temáticos da Disney.

Quero dizer com isto, que, mais de uma banda, os Aerosmith são, à falta de melhor palavra, uma insituição do Rock norte-americano. São uma espécie de “Fast Food”, mas, ao contrário da comida, não fazem mal à saúde.

Com 15 álbuns de estúdio e dezenas de singles, a expectativa era imensa. Não sou o maior conhecedor da vasta discografia, mas confesso que já perdi o número de vezes que ouvi «Permanet Vacation», «Pump», «Get a Grip» e até mesmo «Nine Lives». Por outras palavras, posso dizer que conheço bem a fase “comercial” dos “Bad Boys de Boston”.

Tenho bilhete para a plateia e reparo, mal entro na Meo Arena, que a divisão feita é abismal. Metade da plateia está dividida para o chamado “golden circle” enquanto que o resto dos “comuns dos mortais” está na plateia. Existe mesmo necessidade de fazer uma diferença assim tão grande? Mais valia porem os bilhetes ainda mais caros e assim uniformizava esta questão.

Fora isso fico junto à mesa de mistura, mais ou menos a meio do pavilhão, para precaver das questões do som. Afinal de contas, o local tem a “fama” de ter problemas de acústica.

Depois de uma banda abertura completamente electrizante, os Aerosmith sobem ao palco ao som de “Carmina Burana” e tomam de assalto os mais de 10 mil espetadores que disseram “presente!” na última chamada dos grandes do hard-rock americano.

Há uma chuva de atitude e de poses “rock n’ roll” que Steven Tyler nos habituou estes anos todos. Há também muito rock, mas há algo de estranho no ar. Quando começo a perceber, o que está mal, regresso ao velho clichê de críticas: o som no Pavilhão Atlântico.

A bateria está muito baixa, enquanto a voz, guitarra e, as teclas estão acima da média. Foi sendo ajustado ao longo do concerto, mas pouco se podia fazer. Tanto dinheiro gasto em infra-estruturas e na organização deste evento, porque não investir umas “valentes massas” em técnicos de sons capazes de lidar com um espaço como a Meo Arena?

Ouve-se os singles mais conhecidos («Livin on the Edge», «Love on a Elevator» e «Cryin’»), alguns temas mais “bluesy” e “hard rock” («Rag Doll», «Hangman’s Jury» e «Eat the Rich») e claro as baladas máximas («Dream On» e «I Don’t Wanna Miss a Thing»), responsáveis por me deixar com pele de galinha.

Steven Tyler é comunicativo quanto basta: interage com o público, mas de forma já “pré-formatada”. Como a ausência foi de 18 anos podia ter criado uma maior empatia com os espetadores. De resto continua um animal de palco e tem o público na mão, desde a primeira música.

No encore, os Aerosmith deixam sabiamente «Walk This Way» e despedem-se de Portugal com disparo de confettis. Fazem vénias aos espetadores e “voilá”: arrivederci Lisboa!

Então e a «Crazy»? E a «Janie’s Got a Gun»? Falta a «Amazing» pá! Pensando bem podiam ter tocado a «Pink», «Jaded» ou «Mama Kin». Acendem-se as luzes do pavilhão e deixam-me sem resposta. É verdade que foram quase duas horas de espetáculo, mas como concerto de despedida soube-me a pouco.

Foi um mau concerto? Não, mas podia ter sido muito melhor, se efectivamente for o “último adeus” dos Aerosmith. Não é por acaso que lhe chamam “a melhor banda de rock americana”. Se têm este título, tem que fazê-lo por isso, independemente dos anos de carreira.

Lamento Steven Tyler, Joe Perry, Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Kramer, mas foram uma desilusão. Se voltarem a Portugal, podem tocar num Passeio Marítimo de Algés ou no Parque da Bela Vista. É só para tirar as teimas sim?

Crónica: João Pardal