“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, Luís de Camões

Agosto representa, para maior parte dos portugueses, o mês destinado para as férias de verão. Em termos festivaleiros, agosto representa também o período indicado para sair dos centros urbanos e onde acontece autênticas peregrinações sem ser para o santuário de Fátima.

É aqui que entra o Meo Sudoeste, provavelmente o festival de música português que é maioritariamente frequentado pelas camadas mais jovens. No entanto nos últimos anos, a parte “musical” tem sido secundária para a maior parte do público que paga o passe para os nove dias de festival.

“Vão lá alguns artistas que conhecemos por alto, mas o que interessa é que vamos com o nosso grupo de amigos. Temos que parecer fixes e por isso tenho que ir”.

Como habituée deste tipo de eventos, posso dizer que uma grande parte dos “miúdos” que estão neste momento na Zambujeira do Mar tiveram esse pensamento. Afirmo isto porque já me passou algo parecido dentro da minha mente. Sim. Houve uma altura em que “quase” fui ao festival.

Tinha um grupo de conhecidos do meu liceu que queriam ir ao festival e insistiram que eu fosse também. Confesso que não me lembro qual foi o ano nem do cartaz mas só sei que não ia ao encontro dos meus gostos e não estava disposto a gastar dinheiro em algo que não me cativasse.

“Ah mas vem! Vai ser fixe! Acontecem sempre imensas coisas e é bonito acampar”, tentava convencer uma das pessoas desse grupo da “malta fixe”. No entanto, não cedi à tentação e fiquei em casa enquanto eles se foram divertir para a Herdade da Casa Branca.

“Fogo grande careta que me saíste pá. Qual era o mal ter ido?” Deve ser isto que alguns dos meus estimados leitores devem estar a pensar.

Nenhum, respondo agora de forma directa. O Sudoeste nunca foi um festival que me interessasse e agora ainda menos. Nos últimos 10 anos, conto com os dedos os artistas que quase me fizeram comprar o ingresso para entrar no recinto.

Invés disso, os espetadores preferem ir pela “experiência”. É uma forma de fazer campismo e saírem da zona de conforto. Sem supervisão parental é quase sinónimo de liberdade, de nos “transformar” um pouco (nem que seja só durante uns dias) e de fazer o “que bem nos apeteça”.

Não há qualquer problema em frequentar festivais com este tipo de pensamento. Também já fui adolescente e não há nada melhor que fugir da rotina das obrigações escolares. Tirar notas minimanente satisfatórias em exames nacionais e, ao mesmo tempo, questionar sobre qual curso universitário queria frequentar eram alguns dos dilemas que atormentavam (e atormentam?) qualquer jovem nessas idades.

No entanto é estranho ver um festival com um peso histórico como o Sudoeste ter sucumbido ao comercialismo. Hoje em dia é visto como um “parque de diversões” ou uma “colónia de férias” e não como um festival de música. Será um reflexo dos tempos que se vivem?

Relembro que este mesmo festival já teve no seu cartaz Marilyn Manson e Blur na primeira edição em 1997 e que, no ano seguinte, conseguiu trazer os Portishead pela primeira vez a Portugal. Agora, passados 20 anos, alguns dos nomes mais “sonantes” são de um grupo chamado de The ChainSmokers ou de um DJ chamado Martin Garrix.

Pessoalmente tenho pena não poder presenciar o concerto dos Jamiroquai, uma banda veterana e, ao mesmo tempo, uma carta fora do baralho, comparando com o resto do cartaz. “Pérolas a porcos” dirão alguns críticos mais acérrimos.

É conversa de velho do Restelo? Será “insanidade virtual” em plena silly season? Pode ser um misto de ambos, mas, a verdade esta crónica é apenas um testemunho de um jovem “um pouco mais velho” que tem pena ainda não ter frequentado o festival que “a malta fixe do liceu” já esteve.

Com cartazes destes, não me apanham lá muito depressa, mas como se costuma dizer que “a esperança é a última a morrer”…

A ver vamos.

Crónica: João Pardal