Já passamos meio mês de dezembro e com tanta algazarra das celebrações natalícias, dou por mim a pensar que, mais uma vez, este ano passou a correr. Sim estou a ser clichê, mas, pelo menos para mim, foi o que aconteceu.

Mais um ano repleto de música, de concertos ao vivo e, sobretudo, de novos álbuns. Em junho passado, fiz o balanço dos lançamentos discográficos e quando chegou a época de fazer escolhas dou por mim a pensar, que, pela primeira vez, vou ter uma lista exclusivamente dedicada a trabalhos portugueses.

Ouvi muita música estrangeira, dos mais variados géneros, mas acho que os destaques do All We Need Is Noise de 2018 merecem ser exclusivamente nacionais. A lista não tem nenhuma ordem específica.

1.) Slow J – «The Art of Slowing Down»

Já tinha incluído em junho deste ano, mas merece novamente a distinção. 2017 é o ano de consagração do rapper e 2018 vai dar um passo ainda maior. Slow J é, até à data, a única confirmação do festival Super Bock Super Rock no palco principal (no Altice Arena).

Tive oportunidade de presenciar o concerto na edição deste ano no mesmo festival e devo dizer que surpreendeu-me em todos os aspetos. A performance, o ritmo, a interação com o público, o carisma e a humildade foram elementos que se destacaram na sua atuação. Há qualquer de coisa de especial deste artista quando consegue encher praticamente o palco secundário e pôr os espetadores a cantar em uníssono. Se quiserem saber mais motivos, podem ler o artigo aqui.

2.) Luís Severo – «Luís Severo»

Foi o último disco a ser considerado para esta lista, mas não deixa de ser menos importante. Já tinha ouvido falar deste artista, mas nunca tinha tido “tempo” para ouvi-lo atentamente. Costuma-se dizer que as melhores coisas não são planeadas e no caso de Luís Severo foi o que aconteceu.

Enquanto ouvia a emissão da Vodafone FM durante o festival Vodafone Mexefest, um dos concertos incluídos na transmissão era deste artista. Sintonizei e, durante uns 40 minutos, fiquei rendido à voz e ao piano. Quando acabou o concerto, pensei para mim mesmo: “Porque raios não tinha prestado atenção a isto?!?”

O álbum homónimo, o segundo da ainda curta carreira, é um disco curto, intimista, minimalista, mas carregado das mais diversas emoções. Tenham atenção a este “miúdo” porque ainda tem muitas histórias para contar.

3.) The Zanibar Aliens – Space Pigeon

“Já não se faz músicas como as antigas. Agora a malta só quer kizomba. O rock está morto”, profere o velho do Restelo. Totalmente falso! É verdade que o mainstream já dá pouca importância a este género musical no que diz respeito a novas bandas mas ainda há muitos projetos que tentam singrar pelo panorama musical.

Os Zanibar Aliens são um quarteto de rock psicadélico fidedignos à década de 1970, com gadelhas a condizer, mas o mais curioso é que nenhum dos integrantes viveu o apogeu desses anos (aliás nenhum dos elementos ultrapassa a barreira dos 30 anos). «Space Pigeon» é o mais recente álbum e devo dizer que, em cada lançamento discográfico, aperfeiçoam a musicalidade e a capacidade de escrever novos temas com sabor “vintage”. «Rejoice» é capaz de ser uma dos melhores coisas que ouvi nos últimos tempos.

4.) Surma – «Antwerpen»

É talvez o disco mais sui generis desta lista. Mais conhecida por Surma, Débora Umbelino tem tido uma caminhada ascendente. É uma “one woman band” e a música que faz não tem rótulos.

Aliado à veia de originalidade, Débora Umbelino é um poço de boa disposição, capaz de contagiar qualquer um. «Antwerpen» é um disco experimental, repleto de paisagens musicais, todas elas construídas a partir da criatividade de uma jovem artista.

O facto de ter presenciados os primeiros concertos da Surma ajudou a estabelecer um carinho especial pelo percurso de Débora Umbelino. 2018 também promete ser um ano em grande para jovem de Leiria. Irá participar no festival norte-americano South by Southwest e no festival Eurosonic da Holanda.

5.) Alexander Search – «Alexander Search»

“Last but not least”, o disco que mais me surpreendeu este ano é o projeto de Júlio Resende e do mediático Salvador Sobral: Alexander Search. Já que estamos a falar deste artista, devo dizer que, para mim, é a revelação/personalidade do ano.

Primeiro porque se tornou no primeiro (e na minha opinião único) vencedor português do festival da Canção e logo com a maior pontuação de sempre na Eurovisão. Em segundo lugar, nas mais variadas entrevistas que deu, Salvador revelou que tem uma personalidade fora da caixa e por isso torna-o um ser humano interessante de se ouvir. Com uma experiência de vida, apesar de ainda ser curta, está recheada de contornos particulares (recomendo que oiçam a conversa no podcast Maluco Beleza com o Rui Unas). Já me alonguei sobre este tópico aqui no blog. Caso queiram (re)ler, podem-no fazer aqui e também aqui.

O disco é denso, conceitual e conta também com músicos de excpeção. O pianista Júlio Resende é uma peça fundamental na concepção deste projeto. Tudo começou quando o músico comprou um livro de poesia em inglês de Fernando Pessoa. “Fiquei muito tocado e muito perturbado com o que li, e inspirou-me para trazer ao de cima uma ideia antiga de ter uma banda de rock, com letras em inglês”, relataJúlio Resende, em entrevista à agência Lusa.

Em poucas palavras, «Alexander Search» é um daqueles casos que vale mesmo a pena comprar, no formato físico da palavra, para apreciar o trabalho como um todo. Ler as letras. Apreciar a estética do cd e tudo mais. Ouvir o disco apenas nas plataformas online não faz justiça à grandiosidade do álbum.

Texto: João Pardal