Cada um de nós, refinamos o nosso gosto musical ao longo do tempo. Evolui num determinado sentido. Os motivos podem ser variados. Um fator importante é o nosso grupo dos amigos e o desejo de ser alguém mais “fixe” nesse grupo torna-se numa batalha constante durante a adolescência.

Afinal de contas é o período de descoberta pessoal em vários níveis e a música constitui um pedaço vital nessa equação. Mas depois há bandas que gostamos e não sabemos explicar bem porquê. Bandas que, raramente, trazemos à baila se queremos discutir “música” como gente crescida.

Dizemos a nós próprios que não gostamos, mas passados alguns anos, voltamos a ouvir e estranhamente sentimo-nos bem. É o nosso tesouro pessoal e que recusamos a partilhar com mais alguém. Não por sermos invejosos, mas por ter medo de nos rotularem como pessoas com gostos “esquisitos”.

Por isso este artigo vai servir como testemunho público para libertar essas incertezas, de forma a completar o círculo.

Como apareceram os Paramore?

A primeira banda a ser alvo desse escrutínio são os Paramore. O grupo norte-americano teve o seu boom em 2007 com o álbum «Riot!». Há 11 anos estava no liceu. Estava no apogeu do meu fanatismo pelos Metallica e pelas sonoridades mais pesadas. Não há tempo para assumir que se gosta de música pop. Relembro-vos que na escola reina o período das tribos. Dos metaleiros, dos desportistas, dos cromos e dos fixes.

Eu sinceramente não me encaixava em nenhuma delas. Não era fixe, mas também não era cromo. Metaleiro não o era porque ainda estava na fase da descoberta. Provavelmente punham-me na categoria dos cromos, mas a verdade é que nunca me preocupei com essas categorizações, pois tinha amigos de ambos os lados da barricada.

Não sei precisar o momento em que descobri esta banda, mas provavelmente deveu-se a uma tribo de um liceu diferente na minha zona. Nesse grupo, idolatrava-se Blink 182, Simple Plan,  Fonzie (alguém se lembra desta banda portuguesa?), Sum 41, My Chemical Romance, Linkin Park, e também…(suspiro)…Tokio Hotel.

Por amigos em comum, comecei a conviver com eles e a partilhar gostos. Simpatizava com os Blink 182 e Sum 41. As outras pouco me interessavam. Até que Paramore passou a ser o foco nas conversas.

Para além de trazer a energia do pop punk típica dos Blink ou Sum 41, o quarteto era liderado por uma vocalista: a Hayley Williams. Gira, ruiva, boa voz e cheia de atitude. São todas qualidades que fizeram com que os Paramore se destacasse das outras bandas.

Não eram meninos de one hit wonders. Tinham várias canções memoráveis. «That’s What You Get», «Crushcrushcrush» e «Misery Business» são apenas alguns exemplos. Temas electrizantes, que uniam riffs de guitarra com refrões orelhudos, numa mistura bem conseguida: era este o mote que definia o disco «Riot!».

O momento em que percebi que era uma banda especial, estranhamente, foi na altura em que estreou o primeiro filme da saga Twilight (aquela história de amor do vampiro com uma humana) no ano seguinte.

Acontece que, por ocasião do filme, os Paramore foram escolhidos para compôr uma canção inédita. O resultado final é «Decode». Tendo em conta a faixa etária destinada do filme, o tema, na minha opinião, está muito bem conseguido. Já Twilight é altamente lamechas mas mesmo assim…(isto vai custar admitir)…(força tu consegues)…vi no cinema (Bolas! Lá se foi a minha credibilidade).

Para além de ser uma música altamente bem construída, «Decode» convenceu-me que Crepúsculo (título do filme em português) podia ser alguma coisa de jeito. É um feito memorável porque a longa metragem não é de todo nada direcionado para os meus gostos pessoais.

Estreia dos Paramore em Portugal

O sucesso estrondoso de «Riot!» fez com que os Paramore editassem, em 2009, o álbum «Brand New Start». Apesar de estar a quilómetros de distância do impacto que foi o registo anterior, a música «The Only Exception» provou ser uma bela balada mas, nessa altura, os meus interesses centravam-se em outras sonoridades.

Nesse ano, presenciaria uma das mais memoráveis edições do Optimus Alive. Assistaria ao concerto dos Alice in Chains e Faith No More. Concertos que, até hoje, recordo com um sorriso estampado no meu rosto.

Fora dos Paramore, Hayley Williams participou como cantora convidada num tema hip-hop de B.o.B. Aposto que se lembram de «Airplanes». Na altura em que saiu, não havia dia em que passava nas ondas FM das rádios portuguesas.

Depois, acontece o inesperado. Em 2011, numa edição que se tornaria conturbada do mesmo festival devido problemas nas infra-estruturas do palco principal, os Paramore são confirmados no último dia do festival juntamente os Jane’s Addiction, gigantes da música alternativa dos anos 1990.

Num ano, em que “toda a gente fixe” presenciou o concerto do Foo Fighters no Alive, tive oportunidade de ir ao último dia do festival. Arranjei bilhete muito abaixo do preço de custo e assim parti para a aventura: sozinho mas preparado para aproveitar ao máximo o festival.

Das várias edições que já marquei presença, esta talvez foi a mais esquecível. Não porque as bandas foram más. Apenas porque não foi memorável suficiente. Tenho apenas alguns vislumbres na minha mente das atuações dos Jane’s Addiction (por causa das bailarinas em palco e pelo facto de Perry Farrel ter bebido uma garrafa de vinho numa só assentada) e da performance fora de série dos Kaiser Chiefs (o vocalista subiu ao topo da barraca das cervejas situado ao lado do palco).

Dos Paramore, curiosamente lembro-me de pouco. Recordo-me do carisma da Hayley e do baterista sobrehumano (que anos mais tarde, viria a descobrir que era Josh Freese, um dos mais cobiçados músicos de sessão do mundo e dono de um currículo impressionante).

Onde eles andam agora?

Depois de uma pesquisa rápida na Internet, percebi que, nesses anos, a relação dos membros dos Paramore não era a melhor, o que implicou em muitas saídas e entradas de músicos. Os irmãos Josh e Zac Ferro, um núcleo importante do grupo, afastaram-se do projeto. Perdeu-se o guitarrista original, mas o baterista Zac voltou a integrar o coletivo no ano passado e lançaram «After Laughter», o novo álbum em quatro anos.

Por mórbida curiosidade, escutei o single «Hard Times» e, por incrível que pareça, gostei do que ouvi. É pop. É eletrónica. Cheio de vivacidade, mas, ao mesmo tempo, a letra aborda a solidão. Faz-me lembrar as dinâmicas que os Smiths popularizaram (melodia alegre e letra melancólica) com uma sonoridade contemporânea semelhante aos twenty one pilots.

Por uma banda que já vendeu milhões de álbuns, nunca mais deram concerto em terras portuguesas. Por isso posso dizer que sou um dos priveligiados que presenciou um concerto dos Paramore em plena fase pop punk.

Daí é que volto a afirmar que os Paramore, para mim, são um “prazer culpado”. O público alvo é feminino e adolescente, mas mesmo assim consigo reconhecer que há dedicação e criatividade no processo de composição.

É um produto de uma época, que, ao mesmo tempo, fizeram parte da minha aprendizagem no que diz respeito à valorização da música, independentemente dos rótulos que nos impôem.

Texto: João Pardal