Com 46 anos, Dolores O’Riordan dos The Cranberries faleceu esta segunda-feira. Até ao dia que escrevo esta crónica não há confirmação da causa de morte.

A música da banda irlandesa é um marco nos anos 1990. «No Need To Argue», lançado em 1994 , estabeleceu os The Cranberries como sendo um grupo que tanto agrada os fãs das baladas melancólicas («Ode To My Family» e «Empty») mas também os apreciadores de guitarras com distorção («Zombie» e «I Can’t Be With You»), tendo vendido cerca de 17 milhões de exemplares.

Mas é a voz de Dolores que se destaca. Invoca calor para quem a ouve, desperta sentimentos nostálgicos e serve como “cartão de visita” para descobrir uma cultura, graças ao sotaque tão característico da Irlanda.

“You and Me” (a música na minha vida)

Faço uma confissão: não me recordo do momento exacto em que descobri a música dos The Cranberries.

Por ter irmãos mais velhos, fez com que a música que oiço fosse um pouco moldada pelos cds e cassetes que tinham disponíveis em casa. Foi desta forma que descobri o Chris Cornell dos Soundgarden (leiam o relato aqui) ou os Nirvana. Tenho uma vaga ideia de tirar da prateleira e olhar para a capa do disco «Bury The Hatchet» e estranhar o “olho”.

Enquanto brincava no meu quarto, escutava trechos de temas como «Zombie», «Dreams» ou «Just My Imagination», que, secretamente, iam ficando no meu subsconsciente. Por esse motivo, sou um priveligiado, porque a voz da Dolores O’Riordan foi uma constante no meu crescimento.

Anos mais tarde, num epifania com teor nostálgico, decido vasculhar as gavetas onde estão as cassetes. Recordo que os meus irmãos eram rigorosos a gravar as cassetes, ao ponto de fazerem etiquetas “bonitinhas” impressas através do computador.

Deparo-me com esta e fico imóvel:

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Cassete com o álbum «No Need To Argue» dos The Cranberries (com algumas faixas ao vivo)

Fico a contemplar o objeto, tal como se tratasse de um artefacto valioso. Senti-me um autêntico Indiana Jones a desbravar templos perdidos, com apenas um pensamento em mente: “Isto pertence a um museu”.

Num ápice, passa para outro: “Tenho de ouvir isto!”

Meto a cassete na minha aparelhagem e de repente, oiço o icónico “tururu” de «Ode To My Family». Nesse momento, a voz de Dolores fez com que ficasse com “pele de galinha”, sem saber porquê.

Escuto os cerca de 60 minutos de fita gravada e quando chegou ao fim, rebobino (este verbo até parece que cheira a mofo de tão “antigo” que é) e vem um outro pensamento: “Tenho de ouvir mais vez”.

Nesse dia, devo ter ouvido a mesma cassete umas três ou quatro vezes. São poucos os álbuns que têm este poder magnético que «No Need To Argue» possui. Afinal de contas, é o álbum mais bem sucedido da banda.

O facto de tocar a «Zombie» com a minha banda é um testemunho da influência deste grupo numa geração que era criança, quando esta música estava nos tops de venda.

Por ironia do destino, decido prestar atenção, durante os primeiros dias de 2018, ao mais recente álbum dos The Cranberries. Tornou-se na “música de fundo” enquanto faço a análise de conteúdos para o meu trabalho de mestrado. «Something Else» é o nome do trabalho discográfico e representa uma espécie de best of com novas gravações dos temas mais conhecidos do repertório do grupo irlandês com duas faixas inéditas.

Depois, sem ninguém prever, Dolores O’Riordan deixa o mundo dos vivos com 46 anos de idade. Mais 20 do que a minha. Fiquei em estado de choque.

Mais do que uma voz inconfundível, a música dos The Cranberries conseguem marcar a minha vida nas mais diversas instâncias.

Podem ser pensamentos rídiculos, mas a tua música faz com que os sonhos, por muito que demorem a ser concretizados, não fiquem presos na nossa imaginação.

Obrigado e até sempre.

Crónica: João Pardal / Foto de capa: El Comercio