Como se costuma dizer: à terceira é de vez e por isso assumo um prazer culpado, que pode gerar controvérsia. Hoje apresento-vos o “estranho caso dos Nickelback”.

Só o facto de ter escrito o nome do grupo canadiano, consegui sentir uns suores frios. Não me perguntem como é que consigo reconhecer isso. Apenas digo que cada um de nós tem uma “força” (ou pelo menos quero acreditar que sim)

“A sério que gostas desses badamecos? É mesmo um prazer culpado? Aposto que estás a fazer clickbait! Dislike!”

Vou ser franco: nunca entendi o ódio pelos Nickelback. Tudo bem que são uma banda comercial e que não contribuíram em nada para prestigiar o rock, mas merecem o apredejamento que tiveram?

Não estou a exagerar. Em 2002, os Nickelback, no extinto festival Ilha do Ermal, foram corridos de palco pela plateia. Os cerca de 10 mil espetadores não estavam com disposição de ouvir a banda de «How You Remind Me» e por isso atiraram pedras e garrafas para mostrar o seu desagrado.

O vocalista Chad Kroeger, irritado com a situação, fez um ultimato: “Querem ouvir rock n roll ou querem ir para casa?” A resposta veio com uma garrafa arremessada junto da cabeça do músico. Seguiu-se um seco “See ya!” com direito a um pirete naquele o que acabou por ser o único concerto em terras portuguesas.

Relembro que tinha 10 anos em 2002 e por isso o episódio dos Nickelback passou-me completamente ao lado. Tenho ideia de alguém me contar o incidente durante um dos meus intervalos das aulas no liceu, mas nunca acreditei verdadeiramente. Pensei que fosse um mito urbano. Daqueles sem piada. (podem recordar um deles aqui).

Mas vamos contextualizar um pouco. Uns anos depois do acontecimento na Ilha do Ermal,  estava a aprender o que era rock. Nessa aprendizagem a rádio teve um papel crucial nessa descoberta. Apenas ouvia uma: a Best Rock FM.

A música que passava era absorvida e a estação servia-me como guia das “coisas fixes” para se ouvir. Descobri música portuguesa (Ezspecial, Squeeze These Please, Fonzie, Gomo) e estrangeira (The Rasmus, Linkin Park, Sum 41, Keane), mas havia uma banda que era sinómino da Best Rock: os Nickelback.

Para mim, Best Rock FM e Nickelback eram indissociáveis. Sempre que ligava a rádio, juro que estava sempre a passar qualquer coisa deles. «Too Bad», «Someday», «Rockstar», «Far Away» e claro «How You Remind Me».

Lembro-me de pensar mais que uma vez: “fogo esta malta quando der um concerto em Portugal deve ter uma casa cheia!”. Meu Deus! Quão errado estava!

Seremos “fake haters”?

O ódio pelos Nickelback é universal. Hoje em dia, pode-se dizer que viraram um “meme” na internet. Só os americanos rednecks (ditos saloios) e os canadianos é que gostam deles. Aliás pode ser considerado um insulto: “Tu não prestas! Gostas de Nickelback”.

Há quem diga que Chad Kroeger é o irmão perdido de Nicholas Cage. Seres fã dele implica descredibilizar o teu gosto musical e por aí fora.

Mas a verdade é esta: Nickelback, goste-se ou não, vendem… e muito.

Estima-se que venderam mais de 50 milhões de álbuns em todo o mundo. Têm nove discos editados e o último foi lançado no ano passado. Ou seja, ainda existe público que os quer ouvir, que compra os discos e sobretudo ainda pagam bilhete para vê-los ao vivo.

A verdade é esta: apesar do ódio demonstrado na Ilha do Ermal, posso dizer que já apanhei mais de que uma vez Nickelback nesta semana no FM do carro. Ouvi na Rádio Comercial, nos mesmos corredores onde eram os estúdios da Best Rock. Será o fantasma do tempo passado?

Sou capaz de cantarolar um tema ou outro quando passa numa emissão, porque é a único momento que faço questão de ouvir.

Não vou mentir, o grupo, por vezes, irritava-me porque estavam constantemente na playlist mas olhando para trás, consigo admitir que tenho um carinho especial pelos Nickelback. Porquê? É simples: fazem-me recordar de um tempo em que ouvir rádio representava uma porta aberta para descobrir novas bandas.

Por isso coloco a questão: seremos fake haters de Nickelback?

Texto: João Pardal