Nesta semana, Kendrick Lamar tornou-se no primeiro rapper a conquistar o prémio Pulitzer de música. É um feito inédito e chega a ser histórico. Para entenderem o impacto desta vitória, nos 75 anos que é atribuído este galardão nesta categoria, nunca houve um artista da música popular que tivesse sido premiado com esta distinção.

Numa consulta rápida na lista dos vencedores, a maior parte dos contemplados são artistas ligados à música clássica e do jazz. Dos que pude reconhecer são apenas dois: Wynton Marsalis e Ornette Coleman, nomes com bastante importância no espectro jazzístico (principalmente o segundo, por estar ligado à criação do sub-género free jazz).

Mas quais foram os motivos que levaram o júri do Pulitzer a escolher o álbum «DAMN.» como sendo o primeiro a romper com esta “tradição”. De acordo com a Pulitzer Administrator Dana Canedy, o disco representa uma “coleção de músicas virtuosas unificadas pela sua autenticidade vernacular e dinamismo rítmico” que “captam a complexidade da vida afro-americana moderna”.

Antes de mais tenho a dizer que esta conquista de Kung-Fu Kenny (como é conhecido o rapper) é uma vitória para o rap. Em pleno 2018, este género musical continua a ser “desconfiado” por alguns, mas a verdade é esta: o hip-hop, juntamente com o R&B, domina o mainstream musical norte-americano.

Esta conclusão é do mais recente estudo Nielsen sobre o consumo de música do ano passado. Para além de Kendrick Lamar, a lista contempla também artistas como Drake, The Weeknd, Future e Eminem.

É incrível como um género musical nascido em bairros sociais é atualmente o tipo de música que mais vende. Começou por ser apenas uma forma de retratar a marginalidade da sociedade e agora é um negócio que rende milhões de dólares. Um dos maiores exemplos desta função do hip-hop é o agora clássico som «The Message» dos pioneiros Grandmaster Flash & The Furious Five, editado em 1982.

Voltando ao Kendrick Lamar: o rapper de 30 anos é atualmente uma das maiores vozes da conscielização afro-americana. Esta posição foi consumada quando o artista californiano editou «To Pimp a Butterfly» em 2015, um dos álbuns mais importantes dos últimos anos. O registo discográfico uniu rap, R&B e jazz com uma forte mensagem de crítica socio-política.

«DAMN.» foi o álbum que sucedeu e apesar não ser um disco tão rico em termos musicais, o mesmo conta com colaborações da Rihanna e dos U2. É um registo de hip-hop no sentido mais tradicional, que está recheado com letras provocatórias.

O facto de Kendrick Lamar ter vencido o prémio Pulitzer é notável e engradece este género musical. Mais do que uma distinção individual, é um feito inguável que merece respeito e faz com que se dissipam quaisquer dúvidas: hip-hop é música e “vamos ficar todos bem” com esse facto.

Texto: João Pardal / Fotografia: Koridor