No ínicio deste mês, Donald Glover, mais conhecido pelo pseudónimo Childish Gambino, desvendou dois inéditos temas. A apresentação foi feita no programa Saturday Night Live e a canção que causou mais estranheza foi «This is America».

A atuação e o tom da performance foram recebidos com algum sentimento desconfortável. As redes sociais não tinham uma resposta consensual relativamente à mensagem que o rapper queria transmitir.

No entanto, quando o teledisco foi disponibilizado no Youtube nesse mesmo dia, a música ganhou uma nova dimensão. O que era mais uma canção de hip-hop contemporânea, passou a ser uma mensagem política arrojada e sem precedentes.

“Nós só queremos festejar”

No momento em que estou a escrever esta crónica, o teledisco já ultrapassou as 125 milhões de visualizações no Youtube, conta com três milhões e meio de “gostos” e está em terceiro lugar nas tendências portuguesas da plataforma (tendo já estado em primeiro lugar).

Mas afinal qual é o alvoroço e, sobretudo, o que tem de tão “apelativo” que gera estes número impressionantes?

Antes de mais, quem estiver a ler esta crónica e não tenha visto o vídeo, aconselho vivamente a abrir um separador do vosso browser e perder pouco mais que quatro minutos do vosso tempo.

Mais que um teledisco, é um afirmação socio-política face aos tiroteiros recorrentes nos Estados Unidos da América. Não vou descacar os vários pormenores incluídos, porque já existem muitos sites que já o fizeram. Deixo este vídeo aqui e aqui como pontos de partida. Vale a pena perder umas horas a analisar o conteúdo deste retrato feito por Childish Gambino.

“És só um código de barras”

É um dos versos que compõe «This is America», na minha opinião, resume o tom que Donald Glover quis demonstrar com o teledisco. Para a sociedade norte-americana, não importa as vítimas de tiroteiros, mas sim, as próprias armas.

O momento em que Childish Gambino dispara sobre uma pessoa encapuzada, entrega a arma a um figurante, deixa o recém-falecido estendido no chão e afirma «Isto é a América» é capaz de ser o momento mais poderoso de todo o vídeo.

Representa numa metáfora visual, o debate das armas nos Estados Unidos. O tom surrealista e de festa que a sonoridade do tema propociona está ao nível de um episódio do Twilight Zone ou de Black Mirror.

Quando confrontado por um jornalista, Donald Glover recusa contextualizar o vídeo. O rapper esclarece que cada pessoa terá a sua própria interpretação e por isso não há uma resposta definitiva.

Quem diria que o novo Lando Calrissian seria responsável de conceber um dos vídeos mais impactantes da última década.

Depois de Kendrick Lamar ter vencido o Pulitizer, chegou a vez de Childish Gambino contribuir com um vídeo que valida ainda mais a importância do hip-hop e do rap nos tempos de correm.

Faço só um aparte: Onde está o rock?

Texto: João Pardal